17 de ago de 2017

A Vida é uma Eterna Despedida


Um dos assuntos mais falados em todo o mundo, e principalmente aqui no Brasil é a corrupção.
A palavra  "corrupção" surgiu do latim, corruptus, que significa o "ato de quebrar aos pedaços". Isto é: algo existe no universo e é quebrado. E com isso, deixa de existir como era em sua origem e passa a existir como algo quebrado, deteriorado, decomposto, corrompido, putrefado.  Em termos humanos, isso é o mesmo que considerar que uma pessoa correta, do bem, que tem um bom moral, bons pensamentos, costumes e atitudes, torne-se desvirtuado dessa condição e passe a ser imoral, anti-ético, devasso. E a partir disso, suas relações humanas passam a ser baseadas na obtenção de vantagens ilegais e ilícitas sobre outras pessoas.
Na esfera política é indiscutível que isso venha ocorrendo cada vez mais ampla e abertamente, da maneira mais escrachada e como nunca se viu.
Mas não é somente nessa esfera que a corrupção acontece. Ela existe também na esfera pessoal. A linha que separa um homem honesto de um homem corrupto é extremamente tênue. Quem nunca foi corrompido por algo? E quem consegue fiscalizar isso, se as pessoas são ambivalentes e parciais? 
Somos  frutos de uma cultura onde a culpa sempre é do outro. Nós somos sempre os homens de bem e quem não presta é o outro. Basta abrir a internet e ver isso, quando as pessoas se dispõem a dar sua opinião sobre algum fato. A velha presunção da inocência. O que mais se vê é a prática de culpabilização do outro. Um mundo hipócrita, infestado de discriminação.
Um mundo onde o que mais vale é o dinheiro. Ele é a base de tudo! Direciona tudo na vida das pessoas! Ele compra. Ele corrompe. Ele apodrece o moral e a ética. Num mundo de disputas insanas, o que acontece de fato é que enquanto uma pessoa trabalha, a outra fica rica. Não por trabalhar, mas por transgredir códigos estabelecidos para que as pessoas vivam igualmente, com paz e dignidade humanas. E o homem se vende em troca de mais.
Alguém disse no passado que um homem, quando se vende, vale muito menos do que o preço que pagaram a ele. E eu concordo. Porque quando uma pessoa aceita o que não é aceitável ela apodrece. Ela se degrada.
E nada mais degradado do que o poder do Estado. Uma entidade de poder soberano que representa seu povo e que tem o dever de lhe prestar serviços é o que mais se vende. Agora, então, mais do que nunca: tudo "ele" privatiza! E, não mais que de repente, uma coisa que era direito do povo receber passa a ser um serviço que o povo tem de contratar e pagar! Não é apenas a privatização de um serviço. É tão imoral que passa a ser a privatização do direito do povo!
Enquanto isso, esse tal povo acorda cedo todos os dias e vai trabalhar. Porque aprendeu a competir na escola, e acredita que tudo o que ele tem deve ser conseguido por seu próprio mérito. Ele nem sabe que tem direitos e que está trabalhando por eles. Mais do que absurdo. Para mim chega a ser incompreensível, isso. O Estado privatiza, aumenta a desigualdade (pois só quem pode compra os serviços privatizados) e trabalha contra a população, quando deveria defendê-la, pois é para isso que existe.
Numa sociedade privada não pode haver Estado. Ele não cabe, é incompatível com o modelo de que cada pessoa é uma empresa que deve enfrentar o mercado que tudo rege e se sobressair para não morrer na praia.
Odeio este neoliberalismo! Por conta dele o Estado não investe na cultura, não investe na educação, não investe na saúde!
Trabalhei 11 anos como Curadora especializada em têxteis, e ainda continuo no segmento.
Pretendo continuar por apenas mais uns dois anos, por mais duas exposições que ainda estão em andamento. E como Curadora pude ver como as pessoas têm capacidade criativa, o que torna incrível o segmento em que atuo. No entanto, o reconhecimento dessas pessoas mal se dá! E o pior nem é isso. O pior é que, num mercado onde as competições são acirradas, essa produção criativa e artística é minimamente compartilhada com a sociedade. E o descaso com que tudo isso é tratado chega a ser desestimulante. Trabalhar de modo precário, com tantas dificuldades e sem poder estender a todos o que vejo ser criado é muito triste, pois essas obras belas e criativas são contribuições para um novo pensamento. Mas as pessoas se fecham ao novo e insistem no velho: "Não se mexe em time que está vencendo!". Elas esquecem que um dia o jogador cansa e que um dia, infalivelmente, o time todo vai perder. E com ele, todos os seus torcedores! Não enxergam isso! 
Uma década mais um ano de Curadoria, batendo de frente com ideias neoliberais, onde o mercado sempre esteve acima da arte e do artista. Um tempo no qual tudo precisou ser feito de forma fugaz e efêmera, sem que o mercado pensasse no que eu pensava: deixar na história algo que transformasse e durasse. Por mais que houvesse fruição da arte e de conceitos novos em cada exposição, essa política da transformação sempre foi substituída pela política do mercado, que sempre regeu e falou mais alto.
E minhas curadorias, e os artistas, e as obras e a arte, subordinados, todos, a estas empresas privadas com interesses próprios. Incapazes de investirem e olharem à frente. 
Uma década mais um ano de esperança minha, em destruir esse velho paradigma. Mas vejo como foi em vão, meu trabalho, minha esperança e o que achava que estava construindo, pois se eu olhar há onze anos atrás, o que verei lá é pouca coisa menos, mas muito pouca coisa menos do que vejo hoje, depois de tanto trabalho.
Não foram apenas as exposições. Foram textos e textos que escrevi, acompanhando toda a minha trajetória e Curadoria, pois o objetivo era não apenas o exercício e a brincadeira com as palavras, mas todo o olhar que isso envolvia.
Mas foi igualmente inútil.
Então, ciclo fechando. Depois de tanto tempo batendo em pedra dura, a pedra continua dura, continua íntegra e meus braços é que estão cansados de tanto bater.
Em uma das minhas últimas exposições, no final de um vernissage, levei uma caixinha branca, em formato de gaiola, toda vazada, vazia e a ofereci a todos os artistas. E lhes disse que ela tinha um conteúdo simbólico: o mundo que queria oferecer a eles e a todos os artistas que representei durante todos estes anos em que atuei.
E algum tempo depois eu recebi este e-mail de um destes artistas: 
Bom dia Miga!!!
Estava pensando em você e naquela gaiola branca, vazia, que você nos mostrou...
Foi só então agora que consegui vizualizar e entendi: vi uma gaiola vazia, e o pássaro que estava lá dentro saiu para voar, para fazer seu vôo em direção à sua realização pessoal, ir ao encontro de seus sonhos ...
Não triste,  mas já  pensando na saudade que sentirei dos encontros  nossos, da ansiedade dos dias que faltam, que chegue logo  o Grande Dia de nossa exposição,o reencontro com as amigas artistas para aqueles bate-papos, os abraços, os carinhos, as trocas de idéias e finalmente de ver todas as obras juntas formando um belo conjunto e poder olhar para você e ver o sorriso em teu rosto,  a admiração à todas as peças ...
Desejo que esse teu vôo lhe traga grandes realizações e muitas Felicidades!!!
Você bem que merece isso!!!
Voe minha amiga, o mais alto que conseguir e seja feliz!!!
Um beijo nesse coração tão generoso e saiba que sou e sempre serei muito grata à você por tudo de bom que proporcionou...


Até hoje não consegui responder este e-mail. Eu, que nunca deixo ninguém sem resposta...
Sentei para escrever este texto no dia do aniversário deste artista, e nem o cumprimentei em seu dia. Alguns artistas são tão especiais e importantes que simples comemorações acabam se tornando sem importância...

Então, dedico este texto a este artista que, para minha felicidade, é uma pessoa amiga. Um dos que entendeu, depois destes longos 11 anos de minha presença neste segmento, que devo tocar em frente, em minha longa estrada, pois como diz a música de Almir Sater: 

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais

Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei

Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente

Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou

Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz





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