27 de dez de 2015

2015 Está Acabando



Nasci em 1960.


Quando fiz 50 anos comecei a pensar em coisas que nunca tinha pensado antes: que o mundo em que eu vivo começava um processo de extinção e que, consequentemente, eu e todos os que me importam, também! 


O ser humano tem um poder destrutivo devastador. 
Ele consegue ser pior do que as armas que fabrica.
Hoje, nos últimos dias de dezembro de 2015 o Planeta em que habito inda registra a bestialidade humana: há fome, pobreza, doenças, ignorância, violência exacerbada e sofrimento.
A água já começa a não ser suficiente para todos.
As florestas estão sendo substituídas pelo progresso, que não pode parar.


Aí discutem sobre diferentes formas de energia. 
E militares de várias partes do planeta, inclusive daqui, preferem armazenar grande quantidade de energia nuclear ou usá-la para destruir em grande escala, e com desperdício, do que transformar essa energia e distribui-la a todos, de forma que ela chegue até aos mais desfavorecidos. 


Evoluir o uso de energia renovável? 
O Sol, por exemplo, é fonte inesgotável de energia e chega fácil em todo o Planeta. 
Mas para quê estimular o uso da energia solar se isso tiraria o lucro e o monopólio de empresas geradoras de energia, não é mesmo?
Evolução sem limites!


Enquanto isso, os poucos e sábios índios que inda vivem não mais 
isoladamente por todo o planeta são desonrados e dizimados sem nenhuma ordem contra, ou punição. 
Eles, que cultivam tudo, na natureza, com sabedoria intuitiva.


Doenças novas estão surgindo dos animais modificados e do solo cansado e contaminado.


A indústria dos alimentos polui os rios e envenena nossos corpos com o câncer da mais alta qualidade.


A tecnologia têm se especializado em contribuir com a destruição de tudo quanto é natural e não faço ideia de como é que os seres vivos conseguirão sobreviver à poluição do ar, da água e dos alimentos.


Mas não é apenas o ambiente natural que me preocupa. 
O social também caminha para um flagelo total! 


O tempo e todas as experiências anteriormente vividas pela humanidade não conseguiram impor coerência no convívio de culturas diferentes. 
No lugar disso, uma se impõe à outra numa larga escala de colonialismo ad aeterno
E o que eu vejo é uma espécie de banalização de crimes hediondos, ricamente ilustrados em televisões, onde a mídia, com barbárie, ensina como fazer. 


O consumo de drogas aumentou assustadoramente e hoje em dia até a experiência surreal de beber álcool pelo ânus e pela vagina se tornaram experiências comuns entre os jovens! 


E apesar dos sorrisos infinitos encontrados nos selfies de todos os caminhos virtuais do mundo, o desgosto social é sem igual. 


Nossas crianças crescem com distúrbios de comportamento, nossos jovens se firmam sem ideologia e nossos velhos estão morrendo mais tarde e mais doentes, física e psicologicamente.


Não temos mais em quem confiar. 
Os políticos já não sabem mais governar nem gerir, e não mais nos representam; 
os especialistas se tornaram obsoletos; 
os pensadores contemporâneos já sofrem para raciocinar com lógica.


A inversão de valores é tal que vemos na nossa polícia a ameaça à nossa segurança;  
vemos na indústria farmacológica a grande causadora das nossas doenças.
Desequilíbrios sociais baseados em contra-censos.


Vivo em um mundo repleto de hierarquias inconsistentes como as racistas e as sexistas.


O poder exercido pela classe dominante viola todos os direitos: os das pessoas, os da natureza, os todos!


Há controle, violência, destruição, padronização, ilusão, mentira, insatisfação e falta de paz.


Tudo foi fragmentado! 
E os fragmentos, hoje, se perdem no impasse daquilo que nós nos tornamos.


A escola, fundamentada na educação, tira os filhos do cerne familiar onde aprenderiam os verdadeiros e bons valores e os joga em ambiente competitivo, onde aprenderão a submissão ao sistema econômico nefasto, criado para manter as pessoas do pico do triângulo social.
Os filhos da pátria não devem ter idéias próprias.
Devem seguir competindo com seus semelhantes por um lugar ao sol, um lugar em um milhão, que deixa o resto dos 999 mil morrerem na praia!

E para que o número 1 do triângulo exista e domine e continue a perpetuar o modelo, os campos são cultivados com os agrotóxicos dele, as florestas derrubadas para o progresso dele, o mundo poluído para a riqueza dele, os 999 explorados por ele e a história escrita por ele.


Um sistema de recompensas desigual e hierárquico onde umas 80 famílias no mundo todo têm direito a todos os privilégios e a maioria do resto, é privado dele.


Um sistema que contraria a ordem harmônica e natural das coisas.
Colapso é uma palavra que eu usaria para descrever esse momento histórico. 


Falta flexibilidade.
Falta o sujeito de hoje reinventar a vida e o gosto por ela.
Porque antes, o mundo era azul.


Falta-nos uma boa expectativa de vida.
Novas e boas perspectivas.
Falta, talvez, deixarem a mulher governar o mundo. 


Hoje em dia exploram a natureza da mesma forma que exploram as mulheres. 
Ser natureza, até hoje, é ser passiva. 
Ser mulher, até hoje, é ser passiva.
Acharam que tinham de dominá-las, explorá-las.
Hora de reconceituar tudo isso, de procurar o equilíbrio e a harmonia.
Paz...


Não. 
A ciência não é mais a única fonte de conhecimento.
Sim. 
A natureza sempre encontra uma forma.


Nós, seres vivos, se nos dizimarmos a nós mesmos deixaremos de ver o quanto o Planeta pode viver sem nossa nefasta companhia. 
Passarão anos, décadas, centenas de anos ou milênios até que, após a destruição total uma nova vida nasça dos destroços das coisas que destruímos. 
E tudo recomeçará.
Sem nós!


Ao longo de toda a história da civilização já houve o tempo em que o homem achava que o corpo se sobrepunha ao espírito;  
tempo no qual a crença era a de que tudo se dava além do mundo material, evidenciando o plano espiritual; 
aí o tempo mudou para aquele onde a crença era mais abrangente: matéria e espírito coexistiam e eram igualmente importantes. 


Dizem, que passamos por uma fase de transição.
Eu as estudei no passado.
A história tem sido cíclica: os modelos são sempre os mesmos e apenas os personagens mudam com o tempo.
Mas viver transição é diferente.


Antes a transição era de ordem econômica, social, cultural...
E em algumas regiões do mundo, que aconteciam isoladamente. 
Hoje, a impressão que eu tenho é que ela não envolve apenas alguns países em expansão, e não apenas alguns sistemas.
Ela me parece muito mais ampla e envolve todo o Planeta.


Talvez seja uma idade em que os seres humanos precisem reinstaurar tudo.
Talvez seja o momento real da reinvenção, onde os modelos daquilo que já existiu não devam ser lembrados.


Precisamos renascer.
Nascermos diferentes.
O mundo precisa de contribuições inovadoras.
Olharmos tudo e todos com uma visão que não seja limitada.
Nossos valores precisam ser reformulados.
Abaixo o consumo perdulário, os desastres ecológicos, a desintegração social!


A força da natureza brota de si mesma. 
A do ser humano nasce de suas próprias experiências e saberes.


Precisamos mirar a natureza.
Na natureza a decomposição das folhas fornece o húmus para a nova vida que surge.
Nossa missão é preservar o Planeta em que habitamos, juntamente com todos os recursos que ainda oferece.


Na natureza tudo acontece.
Cada coisa em seu momento, com harmonia até quando o desequilíbrio aparece para manter tudo vivo e eterno, funcionando num fluxo constante de transformação e mudança. 
A natureza de todas as coisas e de todos os seres deve permanecer satisfeita.


Se na natureza todos os ecossistemas se auto-organizam inteligentemente numa teia complexa de trocas com sabedoria, equilíbrio e harmonia, porque não conseguimos o mesmo?
É possível estabelecer relações de cooperação harmoniosa e pacífica.


Num Planeta densamente povoado, faz-se necessária uma nova reorganização, com novas escolhas que visem a sobrevivência da humanidade como um todo.
Não deve ser difícil, pois as necessidades das pessoas são as mesmas necessidades do Planeta.
Precisamos criar adaptações éticas com abordagens multidisciplinares. 


Acredito demais na descentralização, e acho que esse é o caminho.
Pequenos grupos operando em pequena escala. 
Com sabedoria e muita reflexão. 
Atuação voltada à não-violência. Sempre!


Incrível deduzir que depois de todo o progresso, conhecimento e destruição a que chegamos, está nos núcleos sociais mais simples a resposta da vida melhor para o Planeta.
Viver como o homem simples, que respeita a terra que lhe dá o que comer; 
que ora tira da natureza o que ela oferece e ora devolve a ela o que lhe foi tirado; 
homens que ensinam aos seus filhos os seus valores e como preservar; filhos que respeitam a sabedoria dos pais.


Veículos de comunicação de massa se tornam desnecessários, quando valores são passados de pais para filhos. 
Pensamentos abjetos de jornalistas desprezíveis e destituídos de consciência social (com raríssimas exceções), são supérfluos contemporâneos descartáveis.


Isso me lembra que inúmeras pessoas foram às ruas. 
Por questões sociais, políticas, econômicas, ambientais e educacionais. 


E apesar de ninguém gostar de ter as avenidas bloqueadas, atrapalhando o trânsito, e apesar dos comentários mentirosos de jornalistas e da mídia comprada pela elite e pelo poder, a maior parte da população aprova cada movimento e cada reivindicação, seja contra a homofobia e aumento da passagem ou em defesa dos índios, dos negros, da mulher, do professor, do estudante, do idoso, do deficiente físico e minorias desprivilegiadas, sejam elas quais forem.


E por mais que esses movimentos sejam diferentes e aconteçam em diferentes datas, fluem juntos e atuam como um catalisador. 
Sem lideranças hierárquicas, sem comandos externos, sem violência.


Talvez esteja surgindo um estilo de vida voltado à ecologia e à união e cooperação entre as pessoas. 
Modelos novos...
Mas é muito claro que todos esses movimentos vêm para colocarem publicamente em discussão a autoridade.


Porque os movimentos são fundamentados em princípios que são compartilhados por pessoas no mundo todo, e por esta razão são unanimemente aceitos.


O mundo muda.
A humanidade caminha.
A História avança.


Hoje em dia, em várias regiões do Planeta muita gente escolheu trabalhar fora do sistema, por conta própria.
A prática desses vários ofícios oferece à comunidade aquilo que ela necessita e gradualmente isso promove sua autonomia, seja um bairro, uma favela (comunidade), vila... 
Esses lugares acabam se tornando auto-suficientes.
E nascem neles estilos de vida diferenciados.


Porque, na verdade, não importa apenas preservar para continuar retirando do meio o que se precisa, mas é necessária uma nova consciência: aquela que faz as pessoas se sentirem parte daquele lugar onde vivem, para que, com isso, possam crescer interiormente como indivíduos e buscarem um sentido melhor para a sua vida.


Preservo porque sou parte disso.
Preservo para que eu possa continuar e o lugar em que habito, também.
Preservo para que possa ser e viver como uma pessoa feliz!


Durante mais este ano foi em cima desses pensamentos que trabalhei.
E em 2016 pretendo continuar nesta mesma linha de pensamentos.


Em minha profissão como Curadora, tentei fazer com que as pessoas entendessem o seu papel no mundo em que vivem, que conhecessem suas responsabilidades ou que, se nunca pensaram nisso, que se propusessem a fazê-lo.


Promovi a execução de trabalhos com esta consciência e isso me fez feliz e realizada, dado o retorno percebido em cada trabalho executado.


Não bastasse ver a evolução da pesquisa pelo artista e aos caminhos chegados por ele, não bastasse ver o fruto de seu estudo transformado em trabalho conceitual de alta qualidade, prazer maior foi poder ver, pessoalmente, como é que cada trabalho pode ser transformador quando é levado ao público.


É possível, sim, se organizar em pequenos grupos.
É possível propor mudanças e transformações.


As pessoas estão abertas a mudanças e sonham com um planeta melhor. Para si e para todos.


Nem sempre acreditam que isso está em suas mãos, mas à medida que se abrem para o empoderamento e descobrem que podem fazer algo que vai melhorar tudo, elas se dedicam e fazem.


Por essas e por outras, ao mesmo tempo que vejo a massa da humanidade dominada por um poder mundial representado por mínimas pessoas, enxergo nela, também, um grande potencial que pode vir da revolta em ver essa sandice acontecer sucessivamente, sem cessar.


Para tudo há um fim!


Pois que o final de toda essa obsolescência venha em 2016!


Adeus 2015.

Bem-vindo 2016!





Postar um comentário