6 de set de 2014

Exposição "O Mar que Atravessamos", de Fernando Vilela



Acabei de chegar de uma Galeria de Pinheiros, SP, onde vi a exposição do artista Fernando Vilela chamada "O Mar que Atravessamos".
Conversando um pouco com ele, antes de entrar, me contava que lá pelos anos 70, quando ainda era criança, sua mãe era ativista política;
que ele tem lembranças muito fortes da ditadura daquela época; 
que esta exposição trouxe um pouco destas representações que conseguiu reunir;
mas que quase todos os dias ele acrescenta alguma coisa, pois muita coisa ficou sem ser mostrada; 
que ele usou o aço para representar a força; 
e que fez um filme onde o ator que ele convidou para fazer o papel principal é o seu serralheiro e amigo.
Comecei a ver a exposição. 
A primeira obra que vi foi uma foto tríptica enorme de um helicóptero. 
Ela chama "Aço, Aço, Aço". 
Olhando em volta eu percebo que na sala toda, as obras estão mergulhadas no breu, na escuridão, no escuro do entardecer e do amanhecer. 
E voltando o meu olhar ao grande helicóptero percebo o quanto é incrível olhar para ele ali, enorme, metido naquele breu. 
Meu olhar entrou no helicóptero e me pareceu ouvir o som de suas hélices batendo, num barulho tão alto como querendo se confundir com as batidas em meu peito. 
Fiquei intimidada. 
Claramente o helicóptero representava o Poder.
Seguindo com meus olhos vi o dia, vi a noite e helicópteros de aço. 
Como se visse o poder ocupando todos os momentos dos nossos dias, de dia, de noite...
Vi explosões atômicas, tempestades, calmarias com tempestades escondidas nas nuvens, como se estivessem prontas para "atacar", e aço. 
Muito aço.
No meio do salão, sobre uma bancada de aço, vários livros de artista fechados, de um cinza escuro e muito bem confeccionados.
Ao abri-los todos, vi muitos mares. 
Mares de vazios, mares de cavalarias prontas para arremessarem-se como ondas contra multidões, mares de céus e mares... muitos mares
Escuros mares e escuros céus com helicópteros. 
Engraçado, mas nesta hora, ao mesmo tempo em que eu apreciava a confecção de alguns livros que pareciam ter sido preparados em folhas de arroz (me pareceram, mas nem sei se são!), ao mesmo tempo as hélices batiam fortemente e eu escutava os helicópteros muito perto de mim, sobre minha cabeça, como se quisessem me acuar, pressionando e oprimindo. 
A sala acabou e eu saí de lá oprimida pelo Poder.
Havia uma segunda sala numa ala da lateral direita da Galeria.
E ao entrar, dou de frente com uma obra enorme, que vai de uma ponta à outra da parede: livros de aço, arrumados sob uma bancada de aço.
Eles me atraíam como se fossem ímãs e minha vontade era a de ir direto para lá, olhar primeiro esta obra.
Mas resolvi escolher o caminho preparado para o visitante, pensado pelo curador.
E meus olhos seguiram pelas paredes, vendo fotografias tiradas nas noites. 
Tudo muito escuro, mal dando para enxergar direito o vulto das coisas captadas pela lente da máquina.
Como se o artista quisesse dizer que na calada da noite, na época da ditadura, a coisa era feia, porque nada podia ser visto direito enquanto o Poder avançava como antropófago!
Muito pesar nessa minha leitura.
E em relembrar como nesta época havia sofrimento, físico e psicológico.
Não vi helicópteros nestas noites que o artista mostrou.
Mas a força das imagens era tão grande que dispensava isso.
E, de repente, lá estava eu, frente a frente com a obra que me chamou atenção assim que entrei nesta sala: a bancada de aço, com muitos livros (de aço) colocados um ao lado do outro, arrumados.
Chegando mais perto deles e os olhando um por um pude ver o helicóptero, o escuro e o Poder ferindo suas capas e interiores.
Os livros estavam machucados pela força da ditatura.
Livros que contavam as histórias que não “queriam” que soubéssemos; livros que ensinavam; livros que representavam pessoas...
Pessoas feridas, pessoas marcadas, pessoas vitimadas.
Livros vitimados.
Intensas emoções.
Muitos minutos parados na frente daquele aço que ocupava, agora, o papel da vítima.
Aço machucado e abatido.
Finalizando a exposição, um vídeo de 7 minutos, sem palavras, assim como as imagens e os livros de artista.
Sentei-me num banco de aço, coloquei o fone de ouvido e me aproximei de uma caixa grande, também de aço.
Dentro dela estava o vídeo, como se não pudesse ser mostrado. 
E uma tosca abertura retangular para encaixar a visão.
Se eu chegasse mais perto, a imagem crescia e mais nítida, eu poderia ver tudo melhor, como se estivesse espreitando como uma curiosa, algo que precisasse continuar indevassável.
O vídeo começa com um homem vestido de avental branco que nada tinha de brando, pois representava o Poder.
E bem devagar, como se quisesse sentir prazer nos mínimos gestos, o homem coloca suas luvas cirúrgicas, agindo como se fosse um açougueiro que mata criancinhas e depois sai para almoçar.
E no vídeo sem palavras, sons...
E a mesa cirúrgica, com os materiais usados nas mutilações, sacrifícios, torturas.
E vem o primeiro torturado: um dos livros daquela bancada de aço.
O homem ausculta seu coração e o tortura.
Recoloca-o de volta e pega outro livro, outra vítima.
No segundo livro a cena da violência é tão forte quanto a anterior.
E depois disso o livro é recolocado na bancada junto com os outros, antes do homem pegar o terceiro.
Não contente em torturá-lo, o homem o mata!
E toda uma geração de vítimas passa pela minha cabeça.
E o pesar que eu já trazia no peito desde a primeira sala se transforma em pranto!
Por sentir impotência, comiseração e pesar.

Fernando Vilela soube me contar, com muita emoção, como é que seu coração foi atingido pela ditadura. E pôde compartilhar comigo sua dor, que senti de forma tão intensa quanto a dele.
As obras que vi não são de um artista já homem e maduro.
As obras que vi foram feitas por um menino que viu tudo isso de muito perto.
Passear meus olhos por sua exposição era como ter o menino ali do meu lado, me contando como viu tudo isso.
E como isso ainda permanecia forte em suas lembranças.
E este olhar de menino me emocionou e tocou fundo.
E no verbo do O mar que atravessamos, escolhido para nomear sua exposição, mais uma obra com conteúdo, pois a palavra pode ser lida no presente e no passado, mostrando o que foi a ditadura e as marcas que ficaram dela até hoje.
Ou ainda, numa leitura mais profunda, o que foi a ditadura no passado e como ela continua presente e atuante hoje em dia.
E vendo o branco e o preto representando o Poder e a força opressora,
E vendo o aço ora vítima ora carrasco,
Descobri  neste artista aquilo que gosto de ver.
E sem o saber, ele ganhou uma fã.
Sua exposição vai até o dia 10 de outubro.
Muitos amigos meus já a visitaram e também gostaram.
Viva a Arte!

Obrigada Fernando Vilela!
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