9 de jan de 2014

O TEMPO ... a ferrugem... o velho.





Enferrujar: criar ferrugem
Ferrugem:
1. Substância pulverulenta que cobre o ferro exposto à umidade.
2. Óxido metálico (o do cobre toma o nome de verdete).
3. Fuligemalforra.
4. [Figurado]  Falta de instruçãoócio.
5. Velhice.

"ferrugem", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/ferrugem

Falar sobre o Tempo nos remete aos ininterruptos e eternos instantes que passam ou que ainda passarão por nossa vida.

Os que criam marcas boas ou ruins, e que permanecem para sempre, já fazem parte do passado

Instantes que trazem as surpresas boas ou ruins, que ainda estão por vir, pertencem ao futuro.

E há o presente, sempre presente como um presente: separando o ontem do amanhã, nos chega meio que sem identidade, à medida que o segundo de agora já passou, tornando o tempo arbitrário. 

Talvez o presente seja ausente, nos obrigando a pensar no "atualmente".

Pensando no tempo, parei para refletir sobre o "meu"tempo.
Em como meu corpo envelhece a cada dia;
em como minhas memórias e história aumentam a cada dia;
em como recordo muito mais hoje, que ontem;
em como os ciclos se me fecham.
As coisas do passado passam, mas estão sempre presentes em nossa memória e lembranças. Passado no presente...
Muito confuso, o Tempo.




E pensando no velho, e buscando significâncias, cheguei no vetusto.

ve·tus·to 
(latim vetustus-a-umidoso)

adjetivo

1. Muito velhoantigo.

2. Deteriorado pelo tempo.

3. Respeitável pela sua ancianidade.

"vetusto", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/vetusto 

E me encantei com seus três significados.
Muito velho, antigo...
Deteriorado pelo tempo...
Respeitável por sua ancianidade. 
Ancianidade! Que palavra linda!
Soa bem melhor que velhice, que véio, que véi!
Ter ancianidade é ter idade + respeito.

Então, pensando nisso, claro que viajei! 
Pensei nas pessoas idosas de todo o mundo e em como são discriminadas e desvalorizadas, muitas vezes desrespeitadas.
Como seria bom se fossem valorizadas, não?
Em toda a sua experiência, em toda a sua sabedoria...

E me veio à mente, inventar a velhice.
E resolvi, então, inventar uma ancianidade.
E como adoro o experimentalismo, e como adoro tecidos, inventei a ancianidade em um paninho.

Como trazer a marca do tempo para um paninho?
Amarelando-o, talvez.
Mas como intensificar esta marca do tempo ?
Veio-me, então, a ideia de marcar o tecido com ferrugem.

Minha primeira tentativa foi molhar chaves muito antigas que ganhei da minha mãe e que guardo para algum trabalho. 
Molhei-as e deixei-as em cima de um tecido cru, de um dia para o outro. 
Acho que chaves não se dão muito bem com o tempo... 
não marcaram meu paninho... 
resistiram ao tempo...

Tentei, então, um pedaço de ferro que tinha reservado para jogar fora. 
Mais um dia de espera. 
O tempo brinca muito com os experimentalistas.
No dia seguinte, o tempo resistia, e não aparecia no meu paninho.

Então, resolvi radicalizar. 
E fui comprar bombril.
No dia seguinte, uau!!! 
Como foi que o bombril descobriu exatamente o que minha imaginação queria? 
Depois de descartar os restos que se dissolveram  por completo ( eu desconhecia essa etapa de desintegração deste produto), lá estava ele: 
o meu paninho, cheio de ancianidade!!!

Eu sabia que ele era novo.
Mas sua aparência era a de um paninho muuuuito antigo.
E como valorizar a velhice dele?
Bordei.
Bordei com linha e bordei com pedrinhas.
As linhas, que eu respeito por traduzirem sempre melhor o meu trabalho, entram neste paninho para representarem o respeito que tenho pela velhice.
As pedrinhas, que eu adoro por traduzirem o brilho e a presença, entram neste paninho para representarem a importância que dou à velhice.
Vejam estas fotos abaixo:

Aqui é como ficou o meu paninho, cheio de ancianidade.


Usei linha cru da cor ferrugem, também envelhecidas com bombril. Ficou manchada, mas bem legal.

E usei miçangas na cor cobre, pois esta é a cor que mais acho parecida com o estado da ancianidade.


Usei pontos bem simples, assim como nos tornamos simples à medida que envelhecemos com sabedoria.

E, de repente, consegui estabelecer, neste trabalho,  que quem ordena o tempo sou eu. 
Eu o subjuguei e o dominei.
Ou será que apenas o domestiquei?
Hummmm...

O fato é que um paninho de hoje atravessou o tempo.
Ou foi atravessado por ele. Sei lá!

O que eu sei é que inventei uma história para este tecido.
E que a partir de agora ele carregará consigo as marcas de um tempo inventado que, muito dificilmente, será desnudado: só sabe dele quem conhece sua história.

E junto com ele, minha eterna pergunta:

A Arte imita a vida, ou a vida imita a Arte?



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