14 de abr de 2013

Mostra "FRAGMENTOS"...  uma redescoberta !


Fazer uma Mostra individual é sonho de alguns artistas.

Seu ego é massageado, seu trabalho é visto e fecha-se o ciclo que começa com a concepção da sua obra e acaba na existência dela, na materialização de uma ideia que passa, então, a ocupar espaço físico no mundo.

Quanto mais eu exponho, e digo isso como curadora e anartista, mais vejo o quanto é importante quando a pessoa que vê a obra, saiba mais acerca dela.

O conceito. O óbvio. A essência inesgotável. O inescrutável.

Muitos artistas criam e largam suas obras aos que as visitam. Mesmo porque, fica difícil estar ali, o tempo todo, e às vezes, até impossível.

Mas eu percebo o quanto é mágico o conceito e sua voz, que canta como música aos ouvidos daqueles olhos que prescrutam,  como foi produzir intelectual e experimentalmente aquilo que estão a apreciar.

... isso faz com que eles permaneçam por mais tempo na exposição, que olhem com mais  cuidado, apreciando mais.

Não propriamente os trabalhos em si, mas a Arte que emana deles.

O visitante sabe que o artista é um cabalista, alguém que recebe inspiração divina e que consegue expressá-la.

E então, numa exposição interativa, visitante e artista se tornam um, pois sendo a Arte inerente a todos, mesmo que nem todos consigam expressá-la, quem consegue entender todo este processo fica suscetível a este elo, que se cria natural e imperceptivelmente, tornando tudo feliz: aquele momento, aquelas pessoas, aquelas obras...

Quando o artista está misturado com os trabalhos expostos e chega junto com eles ao coração do visitante, ele consegue uma comunicação.

E essa comunicação, uma necessidade do ser humano tanto quanto a Arte, educa, inspira.

É isso que significa o Educativo das Bienais que acontecem em São Paulo, por exemplo.

Muita gente olha os trabalhos expostos pelo grande salão e, na maioria das vezes,  não entende o que eles significam, e nem o que seus criadores quiseram dizer.

O Educativo, então, pega o público pelas mãos e diz sobre um determinado artista e sua respectiva obra: 

ele quis dizer isto
ou... 
ele quis dizer isto? 
ou...
O que acham que ele quis dizer? 
ou...
Acham que devem achar o que ele quis dizer? 
ou...
Acham que devem dizer o que acham que ele quis dizer?

E assim, o povo consegue chegar perto daquilo que foi o "momento de criação". 
Ou não! 
Talvez criem esse momento em si mesmos, e marquem essa obra em sua memória de forma que ela permaneça ali, por muito tempo, pois ficará segundo seu próprio olhar... 

Quando chegamos perto daquilo que o artista quis dizer, entendemos melhor o que está sendo proposto ali.

Explicar o meu trabalho é uma questão fundamental para mim. 

Porque, feliz ou infelizmente, eu sou artista de mim mesma. 

Tudo o que eu expresso faz parte da minha busca interior.

E da minha trajetória.

E de como eu vejo as coisas, um olhar extremamente particular e individual.

Um olhar que eu chamaria de digital, para fazer você pensar nas digitais de seus dedos, mas que não vou falar por estarmos em uma era digital e por entender que você pode ser levado a uma pequena confusão que apagaria a ideia principal do sentido que quis dar...

Se eu não explicar minha obra, como poderão saber o que eu quis dizer?

Preciso dizer!

Senão, meu grito fica perdido num Universo sem fim, num silêncio infinito, num vácuo repleto apenas de breu, e nada, e nem ninguém, vai tomar conhecimento disto.

Mas... será que podem saber?

E será que eu realmente quis dizer aquilo?

E será que eu sempre vou pensar aquilo daquela forma? E se eu mudar?

Cada explicação minha, de minha obra, é como se fosse a alma de cada uma delas. 

Inerente a elas.

Mas estou me desapegando disso...

Quando eu bordo eu transbordo.

E como a própria palavra já diz, eu deixo de me conter e de caber em mim mesma para me derramar para o mundo, me expondo, expondo o meu eu, o meu interior.

Mas dizem que só mostramos o que queremos que os outros vejam. Seria verdade? Vou bordar esta minha curiosidade!

Devassar o interior, a essência. Assim é quem cria.
Assim sou eu.
Assim deve ser o artista.

Deve?

E se assim deve ser o artista, e se assim sou eu, então, mesmo quando paira a dúvida: "será que sou mesmo artista"? ... a resposta me aparece desnudada, desvelada como os véus sobre as mulheres de Mondigliane: sim, eu sou artista

E isto me alegra, preenche e orgulha mais que os resultados de minhas obras.

Essa simples constatação, que tem de reacontecer todos os dias, sustenta meu laço com o divino.

E cada briga interior entre o céu ou a terra, entre o voar ou permanecer com os pés no chão, entre o mostrar ou o esconder-me e entre todos os contrastes que se confrontam interna e diariamente em meu ser, me inspira e me faz criar.

Eu e minha obra = eu, falando com meus demônios e mostrando minhas conversas interiores publicamente, através dos meus transbordamentos bordados.

Isso é exposição.

Nos dois sentidos.

Isso é Mostra.

Mostrar-se nos dois sentidos.

Isso foi esta Mostra "Fragmentos", onde expus fragmentos de todas estas minhas conversas interiores.

E o público, na medida em que eu pude estar presente e explicar sobre cada obra, agradece

E eu também agradeço pela catarse e pelo agradecimento deles.

Minha obra é minha contribuição para mudar os olhos dos que olham a Arte através de mim...

Minha obra é uma contribuição para mudar meus olhos, que olham a Arte que sai de mim...

Minha obra é uma contribuição para mudar a Arte, que olha a mim e aos olhos que me olham...

Este é o Educativo que ofereci, mesmo que tenha sido apenas um fragmento fragmentado da Mostra "Fragmentos", que fragmentou o olhar fragmentante de quem vê e não entende nada!

Fragmentos de mim...

Fragmentos da vida...

Fragmentos de quem cria, de quem aprecia...

Fragmentos do tempo, soltos ao vento, no tempo...


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