12 de set de 2011

Compras Reflexionadas


Ontem pela manhã, quando eu andava a caminho do mercado, perto de minha casa, passei por uma casa onde estavam três pessoas.
Uma era uma senhora de muita idade, sentada no canto de uma garagem, como se estivesse a tomar um ar fresco.
As outras duas eram um casal.
Naquele breve instante em que minhas pernas me levavam e passavam do lado de fora daquele portão, pude perceber que o casal brigava.
E quando meus olhos procuraram, com um querer inconsciente, os olhos daquela senhora sentada que escutava e assistia a tudo calada, eles encontraram a expressão resignada de alguém que achava tudo aquilo um inútil excesso.





Continuei andando e, enquanto caminhava até o mercado, e antes de me distrair com as coisas que as prateleiras iriam me oferecer, fui lembrando do olhar dela.
Pareceu, a mim, que a senhora já tinha sabedoria demasiada para perceber que quando teve aquela idade, no passado, ela fez a mesma coisa;
que ela via, naquele momento, seu próprio filme passado há longos e longos anos, época em que ela vivia a personagem principal.
Hoje ela assistia a tudo apenas como se fosse parte de uma platéia... como uma expectadora que presencia tudo da última cadeira de um teatro, onde o olhar do ator não a alcança.




Mas ela já conhece o final desta estória.
A idade a fez entender que a vida é muito difícil porque é feita de etapas.
E que vamos passando de uma para outra sem percebermos que junto, vamos passando também pelo tempo.
E quando o tempo da nossa vida já é suficientemente longo, a sabedoria traz a consciência daquilo que é inútil  e desnecessário.
E passamos a viver e a entender apenas a essência.
Acho que aquela senhora já conheceu isso.
Mas creio que o casal ainda não descobriu.
Chego ao mercado e logo o preço das coisas e as cores lindas dos alimentos me distraem o pensamento.
Vou colocando os itens no carrinho e pensando nas necessidades dos meus, lá em casa.
E chego num lugar do mercado onde estão chinelos havaianas, pendurados.
Logo minha mão se adianta e pega dois pares deles, pretos, um para cada filho.
E quando as mãos voltam a empurrar o carrinho, o pensamento estanca e relembra aquela senhora...
Os chinelos...
Meus filhos já têm chinelos.
Trocá-los por outros, para que os novos substituam os antigos seria realmente necessário?
Os chinelos ficam sempre no armário, ou jogados em um canto qualquer da casa e meus filhos nem os notam!
Aquela senhora...
Olho para o carrinho e para os chinelos.
O que é realmente importante: levá-los ou deixá-los?
Minhas mãos pegam os chinelos e quando meus olhos os vêem mais perto, minha mente divaga: hoje são tão novos! Mas amanhã ficarão tão gastos...
Poucos se dão conta de como ficam tão confortáveis, depois do chinelo se tornar velho!
E do quanto recebem bem os nossos pés, e nos confortam do cansaço físico.
E do quanto nos renovam...
Meus pensamentos empurram minha mão na direção da prateleira e devolvo os chinelos.
Não vou levar!
É inútil e desnecessário.
Aquela senhora...
Vou andando em direção ao caixa, onde trabalha um garoto pouco mais que adolescente e à minha frente uma consumidora reclama rudemente com ele que está lento demais e ela está com muita pressa.
Ela continua a falar, incessante e peremptoriamente, enquanto o caixa vai passando os produtos, tranquilo e silenciosamente.
E a mulher, alterada, vai embora reclamando...
E eu fico ali, pensando... pensando...
E de repente meus olhos encontram o do garoto do caixa.

E a impressão que eu tive é que ele achou neles o mesmo olhar que vi naquela senhora ...
Ele passa as minhas compras e me pergunta: - "Esqueceu de levar alguma coisa, senhora?"
E no mesmo  instante, penso nos chinelos...
Ainda deve restar alguma dúvida, senão nem me lembraria deles.
Mas tentando ter um pouco da sabedoria que encontrei no olhar daquela senhora respondo ao caixa: "Não, querido. Obrigada".
E penso comigo mesma: É... acho que estou ficando velha.
E volto pra casa.
Sem os chinelos.
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