16 de dez de 2010

Coração em paz

Este é o nome da exposição encomendada por João Cândido Portinari AOS Dumont, uma família brasileira de bordadeiros.

Cândido Portinari utilizou pincéis para dizer ao mundo em guerra que a paz era possível.

O pintor brasileiro expôs as mazelas da destruição e a tranqüilidade de um tempo sem guerra em duas enormes pinturas com traços cubistas.

E a família bordadeira dos Dumont ponteou Portinari com fios e linhas, como faz tão bem.

Para comemorar o retorno dos painéis "Guerra" e "Paz", João Cândido Portinari encomendou releituras de Portinari a vários artistas brasileiros.

A família Dumont ficou encarregada dos bordados baseados nos estudos realizados para a obra, enquanto Milton Nascimento foi convidado a compor uma música para o pintor, e o coreógrafo norte-americano David Parsons preparou uma coreografia na qual o próprio artista dança com uma personagem do painel.

Uma escultura também foi encomendada a Sergio Campos, que interpreta em bronze as duas pinturas. "Acho importante ter a maior quantidade de reinterpretações de Portinari", explica João. "Queremos fazer coisas que possam tocar os múltiplos sentidos das pessoas."

No caso dos bordados dos irmãos de Brasília, João quis associar a brasilidade da pintura do pai à tradição artesanal de desenhar com linhas e tecidos.

"O bordado tem uma história tão brasileira. E os irmãos Dumont são a síntese do bordado no Brasil", diz.

O grupo - formado pelos irmãos Sávia, Marilu, Demóstenes, Angela, Martha e a mãe, Antônia - dividiu o trabalho algumas telas bordadas.

Em 1955, Portinari realizou uma série de 150 estudos preparatórios para as pinturas da ONU. 

O pintor planejou cada canto da obra, desenhou em crayon as expressões e as posições de cada figura e experimentou toda a paleta de cores antes de começar a pintar.

Os estudos serviram de referência para as bordadeiras.

Demóstenes passou os desenhos de Portinari para tecidos e tapeçarias confeccionadas em Minas Gerais e as irmãs bordaram as cenas com fios brasileiros e estrangeiros.

"Utilizamos fios de várias nacionalidades e isso é importante porque esse trabalho busca a paz, que precisa ser abordada a cada dia no cotidiano das pessoas", diz Marilu.

Os bordados reproduzem estudos em telas cujos tamanhos variam entre 1,5m x 1,5m e 0,8m x 1m. "A gente fez uma pesquisa enorme em textos, poesias e na obra, entramos na vida dele para recriar os estudos. 

Assim pudemos ter uma visão da totalidade da obra e dos dois painéis", avisa Sávia.

O resultado é um misto de reprodução do traço do artista e intervenções das bordadeiras.

O colorido está mesclado nos fios de diferentes texturas e as tapeçarias garimpadas por Demóstenes servem de fundo.

"Usamos muito as cores e o cubismo, que são características do Portinari", avisa Sávia. 

"Trabalhamos em cima da tapeçaria. O desenho está sendo seguido à risca e, em volta ,tivemos espaço para a criatividade."

No painel Guerra, Portinari inseriu figuras recorrentes, como a mãe que carrega o filho morto.

A personagem é motivo também de dezenas de desenhos e foi escolhida para alguns dos bordados pelos irmãos.

Uma dança de roda ganhou fundo verde e fios de seda brilhante na delicada versão em bordado.
"Portinari valoriza as figuras de sua terra e nós, bordadeiras, revitalizamos o bordado, por muito tempo desvalorizado.

Os dois trabalhos têm a mesma origem, que são as raízes populares brasileiras", garante Marilu.

Antes mesmo de ficarem prontos, os trabalhos já foram vendidos para um colecionador aficionado por tudo que se refere ao pintor.


Enquanto estiverem no Brasil, as pinturas serão restauradas com apoio do BNDES, que destinou R$ 6,5 milhões para a recuperação e a exposição das obras.

Guerra e Paz devem voltar à ONU em 2013.

(Fonte de pesquisa: Correio brasiliense)


Postar um comentário