10 de mar de 2010

A Arte Têxtil

Muitas pessoas me perguntam se seus trabalhos são "Arte".
Dizem que não sabem diferenciar um trabalho têxtil de Arte ou produção e desconhecem de que forma poderiam fazê-lo.
Vejo esta diferença entre eles de forma muito particular, e é sob este prisma que eu suponho um trabalho que vejo, artístico ou não.

Não é uma visão academicista, mas é uma forma que tem me ajudado muito a reconhecer um bom artista, quando olho para um trabalho seu.

Uma obra de arte têxtil, para ser considerada Arte deve ser única.
É isso uma das coisas que lhe conferem valor.

Na arte têxtil podemos observar a criatividade do autor e a expressão que ele utiliza para explicar um significado especial, um conceito, uma mensagem, uma emoção, um sentimento... enfim, uma idéia, se é que se pode chamar assim.
Quando um artista cria ou reproduz uma idéia, podemos ver em seu trabalho a capacidade que ele tem de passar essa idéia para frente, às pessoas que olharem sua obra.
Neste momento, quando a idéia dele chega "no outro', ele transcende, e a idéia deixa de ser literalmente individualizada, apenas dele.
Então, o trabalho, que é um objeto concreto e palpável, que tem formato, cor, textura, opera num nível metafórico, e passa a ser um instrumento daquela idéia que pode ser, então, compartilhada.
Isso é a "força de expressão".

Alguns contém mais, outros menos.

Alguns são sutis, outros são escancarados.

Cada artista é de um jeito e se expressa de forma particular.
Mas ele tem de explicar tudo o que está querendo dizer?
Não!
Mas sua própria obra se explicará, por si mesma.
Mas o artista pode explicar sua obra.
Sermos informados sobre o trabalho ou o que o artista quis expressar ajuda-nos a entender coisas que, talvez, nem nos chamasse a atenção.
A grande maioria dos artistas faz e deixa as pessoas tirarem suas próprias conclusões.

E se ele quiser fazer algo misterioso?
A idéia do mistério estará em cada traço de seu trabalho, se souber expressá-la.
E para sabê-lo, há que usar de sua criatividade intelectual, que nada mais é do que a informação que o artista tem a respeito da idéia que quer expressar.
Informação se constrói com pesquisa, com estudo, com aprendizagem (prática e intelectual), com dedicação intelectual.
Ir à Mostras, olhar trabalhos de outros artistas, estudar artistas de diferentes regiões e épocas, estudar os materiais utilizados... um vasto estudo.

Se eu faço um panô bonitinho com bom uso de cores, com acabamento perfeito, técnicas variadas, e penduro na parede. O trabalho está muito bem feito. Então, eu posso dizer que é Arte?
Um panô que eu penduro na parede é um objeto decorativo, mas...tudo que serve para decorar pode ser considerado Arte?
Nem sempre.
Um trabalho que possua técnicas diferenciadas pode não ser Arte.
Um trabalho que demonstre o estilo de vida do autor pode não ser Arte.
Um trabalho com produtos têxteis de última geração pode não ser considersado Arte.
Arte envolve, sem dúvidas, forma, profundidade, composição, estilo, técnicas, materiais...
Mas junto com tudo isso há fatores intangíveis a serem considerados, tais como a idéia, a originalidade, os sentimentos, a transcendência, o impacto e a reflexão exigida pela obra.
Mas e se eu demorei um tempo enorme pra fazer, e se meu trabalho demonstra a minha habilidade técnica... e se todo mundo ficar impressionado com minha habilidade...nem assim meu trabalho é considerado Arte? Nem assim!
O tempo e o esforço que usou para trabalhar, o material caríssimo que usou e o fato de ter impressionado a todos com sua habilidade não quer dizer que fez Arte.
O que confere valor artístico à sua obra é a idéia que tem por detrás dela e que você quis expressar do seu jeito, não a estética.
A estética é muito importante pois ajuda a expressar a idéia do artista. Mas ela nunca pode vir sozinha.
Não posso pegar qualquer coisa para expressar minha alegria, costurar numa tela e pronto! Não! É preciso que eu escolha a alegria como temática, que eu pesquise sobre ela e tenha conhecimento do conceito em si, de como vejo esse conceito, do material que vou utilizar para expressar o que entendi disso tudo e das técnicas que vou empregar para passar a minha leitura sobre o tema . Tudo isso porque, o que é o mais importante em toda esta proposta, desejo me comunicar visualmente.

A Comunicação visual está presente na maioria das várias expressões de Arte.
O que muda nesta comunicação é o artista e o que ele escolhe para expressar o que vê: material e técnica.

Há Arte boa e Arte ruim?
Teoricamente sim.
E como é que poderíamos identificar uma obra "pobre"?
Nem sempre é fácil fazer essa identificação ou julgamento.
Mas se uma obra tem um conteúdo banal ou mesmo inexistente, se esse conteúdo é extremamente particular ou se o objeto vale mais do que a idéia, aí teremos um trabalho com pouco valor artístico.
Mas está aí uma coisa com a qual eu não me preocupo muito, pois uma coisa que eu escolhi não fazer foi "julgar".
Tenho comigo que, por mais que a gente tente e se policie, é impossível separar dentro da gente duas pessoas distintas: o eu e o juíz.
O juíz, que deve ser sempre imparcial, deve esquecer o "eu" e tudo quanto há de mim para ser fiel ao julgamento.
Eu, particularmente, não teria êxito nessa dicotomia.
O julgamento dificultaria, e em muito, a minha visão sobre a representatividade de uma obra artística.
Fora que conheço a maioria dos artistas e muitos trabalhos que vejo já sei de quem é, pelo estilo. Julgar sob essa perpectiva seria muito constrangedor.
Mas essa é apenas uma opinião particular, não desmerecendo o mérito de quem atua como juíz.

Uma obra de pouco valor artístico não quer dizer que ela não tenha valor.
Mas repito: não pode ser apenas estética.
A "Arte boa" vem acompanhada de atividade intelectual.

Arte é diferente de artesanato.
Um artesanato você pode reproduzir várias vezes e, por conta disso, deixa de ser "único".
Uma pena as pessoas confundirem tanto!

Para um objeto ser considerado Arte não basta a afirmação.
Podemos fazer uma comparação com chocolates: um chocolate caseiro pode ser encomendado ao gosto do cliente.
Um chocolate industrial é igual para todos, pois é feito em série. Há produção.
O chocolate caseiro é uma forma artística de fazer chocolate, pois pode ser único. (Não quer dizer, lógico, que todo chocolate caseiro é artístico!).

Há que se considerar outros aspectos num trabalho de Arte como a profundidade do que se quer mostrar, a atemporalidade...(Uma peça do Chico Buarque escrita nos anos 60/70 era contemporânea naquela época e sua releitura é atual até os dias de hoje.)

Uma outra coisa a ser considerada é que a Arte está sempre sujeita à análise crítica.
Aliás, os críticos também são artistas.
Diferentes de nós, eles têm talento para se expressarem verbalmente.
E o mais interessante na crítica deles é que o que eles dizem serve de ponto de partida para uma discussão mais aprofundada.
Daí a sua importância num contexto artístico.
Polemizar gera discussão.
Discussão gera retomada de determinados conceitos, valores, aprendizagem, uma visão para fora de si mesmo... Compreendem?


Somos todos artistas?
Se quisermos expressar um sentimento ou conceito quaisquer, pesquisarmos sobre isso e nos aprimorarmos nas técnicas que nos ajudarão a dizer o que sentimos, então somos sim, todos artistas!

E quando nossas obras terão valor artístico?
Quando, sob todos estes aspectos, produzirmos uma. Mesmo que haja críticas contrárias que, aliás, serão sempre bem-vidas.


Por se tratar de expressão individual de uma idéia que abrange a todos, trabalhos artísticos merecem o respeito de todo mundo.

A Arte traz consigo, nas obras, o tempo que o artista viveu, as técnicas desenvolvidas no então período histórico, os materiais daquele momento, enfim, o lado sócio-econômico-cultural daquela época, seja ela qual for. A obra sacraliza este momento então vivido.
Nós morremos, um dia.
Nossas obras perduram...

Quando fazemos Arte fazemos história.

E por que Arte traz companhia à solidão da alma?
Porque é uma catarse individual que, ao transcender, passa a ser coletiva.


Então, que tal tratarmos a Arte com o respeito que ela merece?



Um grande abraço a todos os que por aqui passaram e, particularmente, aos meus seguidores queridos.
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