8 de dez de 2009

Releitura de Obra de Arte


"Loirinha Menininha", releitura de "Côco Lisant", de Renoir

Olá.
Fiz minha primeira releitura em 2005, numa oficina com Angélica Schimit, no SENAC Lapa Faustolo, em junho de 2005.
Foi uma aula muito boa, dada em dois dias, onde pude começar e terminar um trabalho sugerido por Angélica, entitulado "Fim e Começo", de Lasar Segall.
A obra de Segall é esta abaixo:



Minha singela releitura é esta, abaixo:


Eu me lembro que na época achei a técnica muito atraente e gostosa de fazer.
Mas não gostei muito da obra, escura, com cores pra baixo e mostrando a morte.
Mas hoje em dia, estudando mais sobre Segall, seus trabalhos, sua vida e sua expressão devo dizer que foi uma excelente escolha.
E que sou muito grata à vida por ter me dado esta oportunidade, e à Angélica, por ter me ensinado os primeiros passos.

Três anos depois, com um pouco mais de experiência com os paninhos e com muito mais paixão, entrei no concurso de Releituras da Patch & Afins.
Concorri com o trabalho "Loirinha Menininha", uma releitura que fiz do trabalho de Renoir, "Coco Lisant", que podem apreciar abaixo:



Fazer uma Releitura é diferente de fazer uma reprodução fiel da obra.

Produzir aquilo que se entendeu de uma obra que já foi feita anteriormente, por um outro artista, seja ela uma pintura, uma escultura ou qualquer outro trabalho de expressão artística é o mesmo que produzir outra Obra de Arte.
Uma Releitura sempre traz consigo a semelhança.
Nunca a cópia exatamente igual, feita com o mesmo material, os mesmos traços, as mesmas cores, o mesmo tamanho, etc, tal como numa reprodução em série, que conserva todas as características da obra original.

Quando você faz uma Releitura, a primeira coisa que faz é observar um trabalho com os seus sentimentos, com os olhos do seu coração.
Você vai sentir a obra, primeiro, para depois expressar no seu trabalho, o que a obra lhe fez sentir.
E então, vai reelaborar a obra daquele autor, segundo sua própria visão e expressão artística.
Nos detalhes, nos elementos que a compõem, no material utilizado, nas cores, nas sombras...
Você pode escolher fazer o trabalho todo ou ampliar apenas um detalhe da obra. Isso sempre vai ser uma escolha muito pessoal, e é por isso que o trabalho chama-se "Releitura".

Uma obra de Arte é sempre, num primeiro momento, desenhada.
E o desenho é uma linguagem não verbal.
Quando alguém desenha alguma coisa sempre quer que essa coisa signifique algo.
Pode ser um registro de um fato, de um acontecimento de uma época, um pensamento, uma concepção, uma paixão, uma observação.... o fato é que seja lá o que quer que represente, um desenho sempre traz consigo uma gama de significados, tanto para quem o fez como para quem o interpreta.
E o mais interessante em tudo isso é que nem sempre o que se quiz dizer corresponde àquilo que se interpreta, pois ambos são muito subjetivos.
O desenho nem sempre é fruto da expressão livre do artista.
Um desenho artístico pode trazer consigo a experiência técnica do artista, sua formação, seu conhecimento transformado em prática...
Quando fazemos uma releitura, portanto, podemos colocar em prática aquilo que temos conhecimento e prática, nunca deixando de lado nossas emoções e nossa interpretação.

O autor, quando cria uma obra usa a sua criatividade.
Isso não quer dizer que o releitor, quando relê a obra não use de criatividade.
Muito ao contrário!
Uma das características prioritárias num releitor é a criatividade.
É com ela que ele transforma todo o conteúdo que observou em uma obra pronta numa reconstrução.
Um releitor interfere na obra relida, criando a sua leitura para aquilo que observou.
O releitor monta a imagem segundo sua própria expressão, dentro da linguagem da Arte.

No último Festival de Gramado que fui, agora, em 2009, as juízas brasileiras escolhidas para este evento comentaram que deram preferência para rosetar, no Festival, trabalhos que foram criados, não copiados.
Que pena. Vi releituras lindas, lá, de trabalhos geométricos e tradicionais em Patchwork que mereciam um olhada melhor, com o coração.
Existe muito preconceito nisso.
Uma Releitura de Obra de Arte nem sempre é vista como um bom trabalho artístico.
Isso demonstra, além de sandice, muita ignorância.
Quando falamos de Arte não podemos nos fechar a conceitos, regras pré-estabelecidas e expressões tradicionais.
Não que as devamos negar. Mas não podemos nos restringir tão somente a elas.
Há que se abrir espaços para o novo, que traz a criação de quem faz, mesmo que seja em uma simples cópia.
Mas para vermos isso devemos olhar para o trabalho do outro com olhos de criança, sem conceitos pré concebidos, sem rotulações, sem querer achar defeitos...
O talento dos artistas nunca é mostrado.
Fica sempre subentendido.
Somente os olhos mais abertos podem absorver toda essa riqueza.
Olhos sem cobiça, olhos sem inveja...
Quem é capaz disso embebeda a alma com prazeres indescritíveis.

Eu vejo numa Releitura um enorme desafio para um artista.
Ao contrário de desvarolizá-lo, ela lhe proporciona desenvolver sua competência artística e estética;
ela lhe oferece a opção de não trabalhar sozinho, dividindo seu trabalho em duplas ou grupos;
ela o prepara para avaliar sem julgar;
e uma das coisas que considero mais importantes nesse processo: ela o impulsiona à pesquisa.

Um artista que faz uma Releitura é obrigado a estudar, a pesquisar.
Com isso, ele começa a compreender com mais clareza a variedade de obras e de concepções estéticas que temos em nossa Cultura.
E começa a perceber tudo isso em outras culturas, também, fazendo comparações e ampliando o seu conhecimento em Arte.
E com a ampliação do seu conhecimento, sua criatividade adquire instrumentos muito mais variados para trabalhar.
Não gostamos de fazer cursos e mais cursos para aprendermos novas técnicas?
Pois é assim com o conhecimento.
Quanto mais sabemos, mais opções temos para escolher o caminho.

Mas é importante dizer, também, que uma pessoa que não tem muito conhecimento técnico pode ser um excelente releitor.
A Releitura é altamente subjetiva.
E dependendo da qualidade da expressão do artista, a técnica com a qual desenvolverá o seu trabalho torna-se irrelevante.

Minha segunda Releitura, "Loirinha Menininha", foi um dos trabalhos que eu mais gostei de fazer.



Já me rendeu alguns prêmios, também, se é que isso vale de alguma coisa.

Trabalhei nela a textura.
Tentei manter as mesmas cores escolhidas por Renoir, inclusive no paspatour da obra. E escolhi jogar na texturização o encanto que esta obra me proporciona, toda vez que a vejo.
Escolhi fazer um cabelo dimensional, que desse vontade de tocar e que transmitisse maciez...



... e que ao mesmo tempo tivesse o brilho do cabelo de uma menininha loirinha.



Tentei dar a impressão de que a blusa que ela veste é um agasalho gostoso e quentinho...



e que, olhando de frente, o lado esquerdo tenha mais luz que o lado direito, assim como pintou Renoir.





Quis fazer parecer real este momento em que ela está pintando, desenhando ou estudando e coloquei um lápis de crayon de verdade, costurado em 3D, para dar a impressão de que ela o estava realmente segurando.



Com a introdução deste material, meu trabalho acaba se descaracterizando como um Patchwork comum e passa a tornar-se uma obra em Arte Têxtil, onde eu tento retratar o que sinto usando materiais não tão convencionais quanto os tecidos de algodão 100%, exigência do Patchwork Tradicional.
A própria palavra exigir já me atira do lado oposto. Rs...

A introdução do veludo cristal como uma moldura e da lã que eu franzi na agulha para fazer o paspatour em Crazy...











... também ajudam a caracterizá-lo como um trabalho de Arte Têxtil.
Na verdade, quando eu estava construindo o trabalho não estava preocupada com o conceito que todo esse material poderia significar.
O que eu tentava conseguir é que eles mostrassem exatamente o que eu sentia e queria.
Se eu não ousasse experimentar, talvez jamais tivesse conseguido expressar o meu próprio gosto.

E eu lhes digo: aplicar o veludo cristal à mão não é nada fácil!
Tive um enorme trabalho ao fazê-lo porque ele desfia todinho e solta uns micro fiapos que nem sei de onde saem.
Mas, depois de muito trabalho, consegui terminar como queria.

Meu filho, Felipe, não gostou deste meu trabalho. Segundo ele, o rosto dela é muito costurado e ela parece um monstro. Rs...



Quando eu estava fazendo o rosto desta menininha, encontrei muita dificuldade ao fazer a sombra, pois nunca pintei e sou péssima em desenho.
Fiz uns esboços de rostos, antes de chegar neste que se vocês vissem iam achar que era a vovozinha dela!
Então, eu precisava arrumar uma forma de fazer o que Renoir fez com as tintas. Aquela luz, aquelas sombras, aquela modificação de nuances... nossa!
A cada ponto e a cada observação mais crescia minha admiração por Renoir.

Mas estava tremendamente difícil colocar toda experiência que ele tinha com as técnicas numa releitura minha, pois sou totalmente inexperiente nisso.
Então, resolvi me arriscar com aquilo que eu tinha.
Não queria colocar vários tons de tecidos no rosto dela. Preferia um tecido só.
Então, me restaram as linhas e o crayon para tecidos. Arrisquei um pouco de tinta para tecidos em seda, também, mas usei com muito medo. Mas foi. depois, as linhas.
Escolhi as cores que mais se aproximavam das cores do retrato que eu tinha impresso, sentei na máquina e comecei a pintar com a agulha da minha Singer, mudando a linha sempre que precisava.
Foi uma experiência que sorveu muito de mim.
Fui me arriscando e quiltando, quiltando por cima e depois acrescentando outra cor para dar um roseado mais forte, e fui costurando, costurando...
Não cessei para olhar antes que o rosto estivesse pronto.
Até hoje eu acho que, se tivesse parado naquele momento teria desistido ali mesmo.
Quando terminei, olhei e vi que não estava do jeito que eu queria.
Faltava expressão.
Faltava vida.
Faltava brilho.

Fiquei dois dias olhando para aquilo e tentando achar onde é que eu tinha perdido o fio da meada...Ou como dizia minha amada avó, onde é que eu tinha amarrado a minha égua.

Só havia uma coisa a fazer: acrescentar meu trabalho à mão.
Olhando sempre para a foto de Renoir, bordei por cima do que tinha quiltado. Rebordei os olhos, acrescentei alguns pontos, coloquei uma sombra feita com um conjunto de nó francês e fui bordando, bordando, bordando...
Minha mão trabalhava num ritmo alucinante.

De repente, quando achei que devia olhar para ela, parei, coloquei a menininha no centro da mesa, olhei e então achei tudo o que não tinha encontrado antes.
Era aquilo que eu buscava expressar!
Era aquilo o que eu tinha de ter feito!
Era desse jeito que eu queria mostrar.

E de repente eu senti uma emoção muito grande.
E era como se não tivesse sido eu que tivesse feito...
Mas era meu, sim.
Eu trabalhei pra burro!
Me permiti essa sensação.
Ousei fazer!
E não é que deu certo a tentativa? Rs.....
Nunca vou me arrepender!







O lacinho de seda no cabelinho dela me remontou ao passado, quando olhava com prazer as fotos de minha mãe, em branco e preto, ainda menina, com laços enormes nos cabelos.
Era moda.



E a manga de rendinha acabou se tornando um detalhe doce da obra, pois nada mais doce do que uma rendinha na manga de uma blusa de criança.



Tudo neste trabalho foi emocionante fazer.
Era como se cada detalhe fizesse parte da minha vida.
E é assim quando a gente resolve fazer uma Releitura.
A nossa própria escolha do trabalho já é o primeiro passo.
Sempre escolhemos fazer alguma coisa que cala alto o nosso coração.
Daí a realizá-lo é puro prazer.

Para finalizar este trabalho, fiz um Stiple Quilting, que aprendi no site da Sharon Schamber, minha deusa dos tecidos.
Fiz um Crazy e separei-os com lã vermelha.
Eu franzí a lã na agulha, fui aplicando-a aos pouquinhos sobre o zigzag da costura que fiz no Crazy e depois fui para a máquina, quiltar a borda.
Teria sido bem mais fácil quiltar sem a lã, mas não sei o que acontece comigo quando faço meus trabalhos: sempre escolho o caminho mais difícil! Rs...
Eu escolhi fazer assim porque olhar a lã ali me dava uma idéia da composição.
Então, fui quiltando cada bloco conforme me dava inspiração.
No final deu tudo certo, embora tenha sido bem mais trabalhoso.

Uma vez fiz um curso com Jenny Bowker e uma das coisas que ela disse que me chamou muito a atenção é que seu trabalho pode ser visto de perto e de longe. E que ela sempre faz alguma coisa nos trabalhos dela de forma que quem vê de perto, veja-os melhor.
Gostei deste argumento dela e o adaptei para mim.
Desde então, todos os meus trabalhos podem ser vistos de longe e de perto, mas para aqueles que perdem um pouco do seu tempo para verem-no de perto eu coloco um carinho: algo que não dá para ver de longe.
Neste trabalho "Loirinha Menininha" coloquei dois presentes para quem realmente se aproxima: um anel na mãozinha dela, uma pedrinha de svarovsky que ganhei de minha amiga Adalene Ritter...



... e umas missanguinhas vermelhas no paspatour. Mal aparecem nas fotos.
Duas coisas que não se pode observar de longe.

Continuando minha jornada pela Releitura fiz meus últimos trabalhos ainda este ano, para a última Mostra da Uniart Brasil que fizemos na Mega Artesanal.
A WR escolheu homenagear Elifas Andreato e Ademir Fogaça.
Ademir Fogaça faz mais projetos de arquitetura e eu preferi não reler.
Mas quando vi a obra de Elifas Andreato fiquei encantada com as formas, os movimentos, o atrevimento no uso das cores, os poucos traços que diziam tanto...
Sem perceber, fui me perdendo na escolha de qual fazer, e até hoje sinto vontade de fazer mais um monte de trabalhos dele, tão maravilhosos.
Mas eu só fiquei sabendo desta homenagem um mês antes, quando já estava organizando a Mostra, contactando os artistas, recebendo os trabalhos, etc.

Não poderia pedir aos artistas convidados que, em menos de 20 dias fizessem releituras das obras de Elifas. Seria um abuso.
Mas não poderia fazer uma homenagem com apenas um trabalho ou dois! Que silada!
Então, de dia eu corria atrás de organizar a Mostra. À noite, nos 11 últimos dias que antecederam o evento, sentei na máquina e fiz 12 trabalhos de Releitura de Elifas Andreato.
Uma amiga minha que vende máquinas tinha deixado a máquina dela comigo para que eu a promovesse. E o único jeito que vi de fazer isso, com toda aquela correria, foi usar esta máquina nos trabalhos que eu fiz do Elifas.
Então, fiz trabalhos que tinham muitos bordados de máquina.
E não os usei da forma tradicional.
Usei-os para fazer nuances de cores, para fazer sombras, para darem movimentos... usei-os de quilting... fui inventando, e trabalhar em Releituras me dava este direito.
Fiz obras pequenas para que pudessem ser todas enquadradas, depois da exposição, com molduras de madeira.
E o que fiz vocês podem ver nas fotos abaixo:































Tenho consciência de que não ficaram nada bons, dado o desespero e a pressa com que os fiz. O que me salva é saber que serão enquadrados e isto lhes dará uma cara melhor.
Mas foi o melhor que eu consegui fazer de madrugada, enormemente cansada.
Não poderia deixar que Elifas chegasse lá e visse apenas uns poucos trabalhos.
Mesmo assim, mais 3 pessoas fizeram releituras do trabalho dele de última hora, para me ajudar nessa encrenca de última hora.
O que salvou a homenagem foram mesmo os trabalhos delas,que estavam muito bem feitos e belíssimos. Vejam-nos abaixo.
Este é o "Casa de Brinquedo", feito por Jainia Martins, sua primeira Releitura.



O trabalho abaixo foi feito por Maria Helena Lynch Steed e quiltado por Edi Cavazani. Um belo trabalho em dupla.



Estes outros dois trabalhos abaixo foram feitos por Adalene Ritter. O primeiro é o "Segundo Retrato de Elis Regina para a Primeira Semana Elis - 1983"



e o segundo é o "Dia de Palhaço"



Meus projetos com Releitura de Obra de Arte não param por aqui.

Para você que nunca fez uma Releitura, atrever-se é um primeiro passo.

Haverão tropeços no caminho, dúvidas de qual caminho seguir, um enorme trabalho e o tempo, sempre contra o artista.
Mas no final, o trabalho pronto.
E este trabalho trará consigo um monte de histórias.E essa história ficará sacralizada nele por longos e longos anos...

Se é verdade que a Arte expressa a vida, que a vida é bela, que a Arte é bela e que a vida é Arte, então não sei mais dizer se minha vida é pura Arte ou se minha Arte é pura vida!
Só sei que pra resumir isso tudo, só a beleza.

E antes de me despedir, gostaria de mostrar algumas Releituras de obras de Arte brasileiras.
Esta é de Jane Leonetti.



Outro detalhe da Obra:



Esta é de Aprile. A obra relida é uma escultura de Ademir Fogaça.



Esta é de Maria Helena Lynch Steed, feita com a Técnica confetti, uma obra de Klimt chamada "As tres fases da Mulher".
Neste trabalho Maria Helena preferiu destacar apenas parte da obra, justamente onde estão mãe e filho. Uma outra parte da obra original não foi considerada nessa releitura, o que torna o trabalho ainda mais singular e a releitura ainda mais especial.



E outra que a Maria Helena releu do Klimt:



Esta é outra Releitura de Klimt feita por Adalene Ritter



Esta é uma outra releitura de Adalene Ritter, do pintor Sérgio Lopes



E este concurso que eu participei da Patch&Afins foi só de releituras.
Se vocês derem uma passeada pela internet poderão ver lindas imagens de Releituras feitas por amigas brasileiras.

E a partir de agora, quando visitarem uma Exposição, uma Mostra ou uma Feira com trabalhos expostos, tentem olhar para os trabalhos com olhos de quem está vendo pela primeira vez.
Muitos segredos se escondem numa obra que somente os olhos desarmados conseguem enxergar.
Começarão a ver detalhes que podem ter lhes passado despercebidos de outras vezes.
E tudo isso já será um grande aprendizado.

Um beijo a todas.

Cíça Mora
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