10 de jul de 2009

Elifas Andreato



Elifas Andreato nasceu em Rolândia, no Paraná, em 1946.
Quando tinha 14 anos pintou painéis que decoravam o salão de festa da Fiat Lux, onde era torneiro mecânico, iniciando aí a sua carreira artística.
Em 1967 foi contratado como estagiário na Editora Abril onde, um ano depois, conquistou o posto de diretor de Arte do núcleo de fascículos femininos.
Foi diretor de arte da Abril Cultural, um dos criadores da revista Placar e da coleção História da Música Popular Brasileira, além dos semanários Opinião, Movimento e da revista Argumento.
Editou capas da revista Veja e organizou a coleção História do Samba.
Nos anos 70 fazia capas de discos dos cantores mais importantes da MPB e isso lhe deu projeção, marcando sua presença na história política, social e artística brasileira.
Capas de disco, livros, cartazes, jornais e revistas acabaram decidindo os rumos de sua arte. "Foi a forma que encontrei para expressar a minha posição diante dos acontecimentos do mundo e, principalmente, do Brasil", afirma.
É um artista muito premiado e alguns de seus prêmios foram as capas de discos de Paulinho da Viola, Chico Buarque, Clementina de Jesus e Pixinguinha e cartazes de peças de teatro estreladas por Paulo Autran e Othon Bastos.
Trabalhos antológicos de criação que se tornaram raridades de colecionadores, por representarem ícones de defesa da autêntica cultura brasileira.



Já trabalhou em teatro e televisão, como cenógrafo e diretor artístico.
Seus instrumentos: as palavras, os pincéis, os papéis, câmeras e canções.
É um homem de múltiplas funções.



Desde 1979 está à frente da "Andreato, Comunicação e Cultura", atuando em projetos ligados à Educação, Cultura Brasileira, Infância e Artes, juntamente com jornalistas, artistas, fotógrafos, programadores visuais, pesquisadores, ilustradores e produtores.
Neste site o compromiosso é vasto: "disseminar informação,conhecimento, lazer e cultura para pessoa socialmente responsáveis que querem despertar e estimular o sentimento de brasilidade e contribuir com a preservação da memória nacional".
Descobrir o Brasil para os brasileiros.
Aquele Brasil que não aparece nas bancas de jornais nem na televisão.
E, depois de descobrir, guardar bem guardado para que as gerações futuras também possam ver nossas diversas formas de expressão...
Tudo isso você pode encontrar no site da Andreato.

Elifas, por ele mesmo (Extraído do livro "Impressões" , de Elifas Andreato - Editora Globo, 1996):

Meu Papel Nisso Tudo
O artista sempre escolhe o que faz da sua arte.
Ele decide a quem empresta seu talento, como usa os recursos incorporados ao trabalho pelo estudo e pela observação.
Isso sempre foi assim.
Há os que se desculpam pelos rumos tomados e os justificam pela pressão da sobrevivência.
Outros se rendem sem dar satisfação, como se a função do artista fosse servir, não importa a quem.
Esta é a minha satisfação: minha arte se liga à história da minha vida, das vidas assemelhadas à minha, e serve para contar o que eu e pessoas semelhantes a mim entendemos, seja o mundo, a justiça e a liberdade.
Assim deve ser entendida essa trajetória: ela é a soma das impressões fixadas no papel, ao longo de um caminho que começa no Paraná e que não sei onde termina.
O que aprendi, como autodidata, coloquei a serviço do que acreditava e jamais traí minhas crenças nem as troquei pela melhor oferta.
A forma de expressar essa visão nasceu numa fábrica de Vila Anastácio, nas bobinas de papel de embrulho que, ao invés de embalarem fósforos, viravam cenários para os bailes no refeitório da empresa.
Toda semana, os painéis de madeira entregues pela carpintaria eram revestidos dos meus sonhos e, na semana seguinte, já não existiam, tinham sido trocados para que os convidados tivessem a ilusão de passearem por outros cenários que em nada se parecessem com os lugares onde moravam ou trabalhavam.
As idéias vinham de cartões postais, de revistas que eu folheava, nasciam do papel, ganhavam vida em outros papéis e desapareciam para que a imaginação pudesse viajar.
Mais tarde, enquanto aprendia nas redações, vi os jornalistas multiplicarem suas reportagens e opiniões, das máquinas para as rotativas e depois para as bancas.
Foi a lição mais importante das tantas que esses companheiros da criação me proporcionaram: o papel que era o suporte do trabalho original, único, servia igualmente para torná-lo acessível a milhares de pessoas.
Aí eu soube que jamais faria quadros, que minha arte deveria alcançar todos os olhos e todas as sensibilidades, jamais se encerrar entre paredes.
E o papel me permitiria a reprodução ilimitada do desenho.
O que eu criasse, todos veriam.
Por isso, não cuidei apenas das cores, tratei de conhecer o papel, todos os papéis, travei com eles a amizade reverente de quem se desespera e se apaixona.
Essa cumplicidade me deu tudo.
A possibilidade de contar minha história através dos desenhos, as histórias que me contam ou me pedem para contar, registrar os dias e as noites deste país, as vitórias e as derrotas do povo, tudo contado em bom papel.
Por isso me pareceu tão certo e quase previsível contar estes vinte anos de impressões unindo-os a uma nova fábrica de papel, uma indústria que vai proporciona milhões e milhões de reproduções mundo afora.
O que mais poderia querer da vida um sujeito simples, que fez do papel seu confidente, seu confessor, sua virtude e seu destino?
Estas impressões, recheadas e enriquecidas pêlos tantos amigos queridos que decidiram compartilhá-las, são a arte final de muitos rascunhos que a vida me fez fazer.
Elas são o meu papel neste mundo.
Elifas Andreato



Eu, particularmente, adoro os trabalhos do Andreato. E têm alguns que me tiram o fôlego.
Na Mega Artesanal de 2009 foram expostos 12 trabalhos que fiz de releitura da obra de Elifas, além de duas releituras de Adalene Ritter, abaixo



outra releitura da Jainia, abaixo



e uma da Maria Helena, que, na minha opinião, era a mais elaborada e linda de todas.
Maria Helena Lynch, que é...



uma artista maravilhosa, de mãos cheias! A obra dela foi comprada pela WR e oferecida ao Elifas, que adorou.
Quem quiltou a obra de Maria Helena foi Edi Cavazani, que quilta maravilhosamente bem. Uma bela dupla. Fico devendo a foto da Edi.




Este trabalho acima serviu de chamada para a Mostra de Patchwork e Arte Têxtil.
Fiz um texto entitulado "Semeando Impressões" e achei que este trabalho do Elifas ilustrava direitinho a idéia que eu queria passar para as pessoas que nos visitavam.
O texto está abaixo:

Olá.
Seja bem-vindo à II Mostra de Patchwork e Arte Têxtil promovida pela Uniart Brasil, em parceria com a WR.

Mário Quintana escreveu a seguinte frase: “Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, pois a única falta que terá, será deste tempo que infelizmente não voltará mais”.
Durante sua vida você assimila muitos conceitos e se encaixa em muitas regras inexoráveis.
Se o Universo, tão grandioso, está sempre em desenvolvimento, por que deveria ser diferente com você? É possível causar uma ruptura nos velhos conceitos e elaborar um novo paradigma que independa do passado.
Quando você se liberta das imposições e dá uma chance para os seus insights intuitivos que afloram de seu íntimo, abrem-se novas possibilidades e as limitações desaparecem. A mente torna-se livre e a consciência se dispõe a ver as coisas de modo diferente.
Quando rompe essa barreira e se torna livre, você cria novos pensamentos e as idéias nascem de sua experiência de vida. E tudo o que você faz reflete isso.
Quando você se permite mudar, aceita a mudança no outro, também.
A multiplicidade com que cada um de nós pode expressar a vida é enorme e carregada de criação. A capacidade que temos de nos adaptar ao “novo” que surge a cada momento faz de nós seres mais criativos.
Portanto, seja um semeador!
Lance as sementes para que elas germinem!
Derrame-as aqui e ali... espalhe-as aos quatro cantos, para que se alastrem ! Contribua para uma boa colheita!!!!
Poderá apreciar, através dos vários paninhos costurados entre si, quanta riqueza foi semeada por cada autor e cada obra, em diferentes tempos, cores, combinações, efeitos, materiais, idéias...
E que cada trabalho admirado possa semear em você a vontade de contribuir para essa história que se constrói a cada ponto, um dia após o outro.
A Uniart Brasil e a WR agradecem sua visita e dedicam essa Mostra a Elifas Andreato, Ademir Fogaça e a cada autor e obra que contribuíram para que esse momento se tornasse tão especial e grandioso!


Este era o banner:




Outros trabalhos que fiz, coloquei logo abaixo.
Todos os 12 trabalhos foram doados para a ONG zeroAseis, fundada pelo Elifas.
Para falar a verdade, eu sempre desconfiei da integridade das ONGs.
Já conheci muitas que agregam o nome "trabalho social" aos seus projetos para angariar verbas e, na verdade, nada realizam quando a verba lhes cai nas mãos.
Apenas mamam o dinheiro do contribuinte e se justificam através de uma coisinha ou outra que realizam com o dinheiro que conseguem para benefício próprio.
Mas, como para toda regra há as exceções, eu me simpatizei muito com ONG zeroAseis, pela seriedade com que tratam seus objetivos.
Ela terá meu apoio naquilo que quiser e precisar porque vai de encontro ao que eu sempre acreditei e defendi: que para podermos cuidar da nossa nação como um todo, antes de mais nada é preciso o cuidado com a formação dada às nossas crianças.
As crianças sempre crescem.
E se elas têm uma boa educação nos primeiros anos de vida a probabilidade delas se tornarem indivíduos bons e socialmente angajados é muito grande.
Não podemos desprezar isso de forma alguma.
Já bastam os que se dizem políticos!

Quando a mãe espera um filho, sempre sonha com o que ele vai ser, com o que ele vai fazer na vida e em como será bom quando ele deixar de ser um feto e se tornar um bebê, real, que se espressa, que tem um rostinho...
E vêm, junto com ele, as responsabilidades.
A preocupação com sua educação.
Muitas mães trabalham em período integral e deixam seus filhos em escolas ou com alguém que cuide deles.
Outras têm a oportunidade de vê-los crescer e acompanham de perto seu desenvolvimento, sua história e seus pequenos segredos.
Mas toda mãe, depois que o filho nasce, vive em função dele. Trabalha pelo filho, sacrifica-se pelo filho, preocupa-se com o filho, dedica sua vida ao filho, vive para o filho...
Primeiro o carrega consigopor alguns meses. Depois, quando ele chega,ah... cada criança tem uma mãe...
...e uma história...
... e uma vida.



Segurar um bebê no colo não significa apenas a realização de ser mãe, a perpetuação da espécie ou sei lá o quê. Significa responsabilidade. A mãe será responsável, principalmente nos primeiros anos de vida, pela formação da criança. Uma criança feliz será um adulto feliz.



As noites de farra,

de bailes e de festas diminuem ou acabam.
Os bebês precisam de atenção.
Quando nasce o bebê uma grande parte dos pais vão dividir sua vida social com o cuidado destinado ao bebê.
Muitos nem dividem.
Dedicam-se totalmente ao tempo do bebê.
Agora eles vão "dançar" na hora de trocar a primeira fralda, na primeira febre, no primeiro tombo, nos primeiros dentinhos, no primeiro aninho, no primeiro colegial, na primeira namorada...
O bebê cresce...
...mas será sempre um bebê!

A infância sempre ficará marcada na vida de nossos filhos, assim como ficou na nossa.
Os brinquedos preferidos, as histórias, os fatos... a idade que vai virar saudade.



A mãe vai observar a criança crescer e se agarrar em seus próprios sonhos...



Foi assim com Elifas Andreato.
Ele foi um menino que teve uma infância muito difícil, onde a prioridade não era ser criança.
Precisava ajudar os pais na lavoura e sua responsabilidade e seus afazeres eram os de um adulto.
Mas, assim como essa criança agarra essa estrela, acima, Elifas se agarrou num sonho.
Aprendeu a ler quando já era um adolescente e descobriu que também podia pintar... que Deus lhe tinha dado algo especial.
Então, com muita luta e investindo em si mesmo, transformou todas as suas experiências em coisas boas.
Ele escolheu vencer!
Com sua arte, com sua expressão, com seu traço espetacular, com suas cores...
É assim que ele desenha a vida.
Que luta para que ela se torne melhor.
Um eterno sonhador.
Um artista nato!

A Obra abaixo chama-se "Casa de Brinquedos".
Também é uma releitura de Elifas Andreato e foi feita por Jainia Martins Gonzaga de Oliveira, esta pessoa maravilhosa na foto abaixo.



O trabalho foi exposto na Mostra de Patchwork e Arte Têxtil de 2009, que teve na Mega Artesanal.
Foi a primeira vez que Jainia expôs um trabalho seu. Saiu-se muito bem.
Todas as pessoas que viram o trabalho dela gostaram muito e fizeram muitos elogios. O meu elogio se estende um pouco mais, pois ela doou esse seu primeiro trabalho exposto à ONG zeroAseis.
Um gesto altruísta maravilhoso, afinal, quem não gosta de guardar de lembrança a marca de seu sucesso, não é mesmo?
Mas com total desapego e generosidade o coração dela falou mais alto.
Essa é a Jainia!
Uma artista verdadeiramente engajada!



Este trabalho abaixo foi uma outra releitura que fiz de Elifas Andreato.
É um dos trabalhos dele que mais gosto.
Tem um movimento incrível, adoro o traço que define o desenho e as cores que ele escolheu.
Mantive tudo isso na hora de trabalhar com os paninhos.



E abaixo, as outras releituras que fiz de seus trabalhos.
Como eu estava muito atrapalhada com minha agenda, fiz todos esses 12 trabalhos em 10dias.
Um tempo recorde.
Mas valeu à pena.
Em todos eles eu usei bordados à máquina e todos foram finalizados com o acabamento envelopado (Bater costura e virar).
Minha máquina não tem estes pontos de bordado que usei nas obras.
Entretanto, a Helaine deixou a máquina dela em meu atelier para que eu pudesse realizar estes trabalhos com esta proposta diferente, de usar bordados como enfeites, sombras, realces de cores e detalhes, diferentemente do uso tradicional que imprimem à ele.
Helaine é minha vendedora de máquinas preferida.
Atualmente está na SM Máquinas.
Ela vende todas e conhece tudo delas.
Uma profissional de mão cheia.
Sempre a indico para quem vai comprar alguma máquina de costura porque ela não é uma vendedora que te empurra alguma coisa que quer vender.
Vai de encontro ao que você precisa e te vende só se você realemnte quiser, sem ser chata.
Mas o mais legal nela é que está sempre disposta a te ensinar para que serve "aquela coisa" da máquina, que ninguém sabe mexer!

A proposta de usar bordado como complemento artístico foi muito apreciada pelas pessoas que visitaram a Mostra, principalmente pelas bordadeiras de profissão, que puderam ver o bordado sob um outro prisma.
Elas adoraram as possibilidades diferentes que viram nos bordados em meus trabalhos.
Foi muito legal.

O trabalho abaixo eu chamei de " E eu, passarinho".
Todos os nomes dos títulos fui eu quem deu.
Achei importante na hora de mostrar o sentido da minha releitura. Esqueci de comentar isso com o Elifas. Acho que ele iria aprovar.



O trabalho abaixo é "Tunico Ferreira".
Resolvi fazer esta releitura porque adoro traços como estes.
Repare que, com poucos riscos, Elifas consegue compor um rosto com expressão.
Acho isso fantástico.
Mantive as mesmas cores mas não coloquei os detalhes do original, por causa do tempo curto que tive para elaborar os trabalhos.
Neste me ficou a sensação de que poderia ter completado um pouquinho mais.



Abaixo, "Acordeão do Mensageiro Alado".
Que nome não?
É!
Foi de propósito!
O traço é tão contemporâneo e diz tanto em tão poucos riscos que coloquei um nome arcaico para contrapor tudo isso.
Achei equilíbrio no trabalho só depois que estudei seu nome.



Abaixo o trabalho "Alegre Soprano".
Um dos meus preferidos.
Que traço!
Amei fazê-lo.



Outro que adorei fazer: "Sincopando a Melodia".



Abaixo, "Em Ritmo de Percussão".



Abaixo, trabalhos que vocês já viram no texto acima.
Mas recoloquei-os para que vissem seus nomes.

"Semeando Impressões"



"Folguedo de Outrora"



"Em Estado de Graça"



Cadência do Prazer"



"Acalentando Sonhos"



"Idade das Quimeras"



"Casa de Brinquedos, feita por Jainia M.G. Oliveira.



"Retrato de Elis Regina para a Primeira Semana Elis - 1983" , feito por Adalene Ritter.


"Dia de Palhaço", feito por Adalene Ritter. O Elifas adorou este trabalho.



E o trabalho feito por Maria Helena Lynch Steed, maravilhoso, e quiltado por Edi Cavazani, um quilt maravilhoso também, fechará este meu texto com chave de ouro. Infelizmente ainda não tenho a foto dele.
Logo no primeiro dia da Mega Artesanal foi feita a homenagem ao Elifas e o trabalho foi entregue a ele.
Depois disso, não voltou mais para a Mostra e, portanto, não pudemos fotografá-lo. Mas eu vou conseguir uma foto dele e logo a trarei aqui para que possam vê-la.
Uma beleza de trabalho!
Um abraço a todos, às minhas seguidoras queridas e, principalmente, à WR com sua Mega Artesanal, sem a qual, nada disso seria possível.

Esta pesquisa que fiz do Elifas foi através da internet. Site que destaco:
www.ibacbr.com.br
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