12 de fev de 2009

Meu filho é um Bicho.


A adolescência é um período de transição bio-psico-social pelo qual o ser humano passa entre os 10 e 20 anos, aproximadamente.
Nessa fase, o jovem passa por uma série de mudanças, relacionadas à sua maturação sexual, à necessidade de auto-afirmação perante o grupo social a que pertence, à busca pela independência financeira, à pressão psicológica para a escolha de uma profissão e ao aumento do esforço intelectual, vinculado aos exames e preparação para o ingresso na universidade. O processo seletivo é apenas o primeiro desafio da vida profissional. E também uma grande conquista pessoal.
O nome vestibular vem de vestíbulo, que significa entrada, porta principal ou ante-sala e comumente é associado ao processo que possibilita o ingresso em um curso superior no Brasil. O exame de seleção se tornou obrigatório no país em 1911.
A possibilidade da competição e da classificação ou desclassificação frente a uma vaga na faculdade ajuda a aumentar o nível de estresse dos adolescentes.



Tornam-se potencialmente ansiosos, devido a todo esse conjunto de incertezas, comuns a essa fase da vida.
Em vista disso, o seu rendimento na escola cai, ficam doentes com mais freqüência e suas relações com as pessoas ficam mais difíceis. Principalmente com os pais, com quem eles têm contato mais direto e mais intimidade.
A maior pressão psicológica, hoje, que sofre um estudante do Ensino Médio é esta grande batalha para conseguir uma das vagas na mais concorrida universidade do país.
E o pior é que muitos desistem ou pior ainda, declinam de sua vocação por temerem tanta concorrência. Então, se eles querem ser médicos, por exemplo, resolvem fazer exames para Educação Física porque a concorrência é menor ou a soma dos pontos necessárias, menos exigente. Uma classificação decidindo uma escolha.
É extremamente importante, nessa época de vestibulares, que eles saibam que é fundamental seguirem sua vocação e suas habilidades. O gosto pelo que escolhem e o exercício disso é que os tornam cidadãos capazes e empreendedores, felizes, realizados e respeitados, depois de se formarem e atuarem profissionalmente..
O sistema faz com que o aluno desacredite em suas próprias potencialidades e que não tenha coragem de enfrentar as deficiências que o próprio sistema cria.
É preciso enaltecer o esforço e a obstinação como virtudes em nossos adolescentes, como uma experiência a ser levada para o resto da vida. É preciso que eles reflitam sobre o imediatismo de uma prova ou processo seletivo. Mas é muito complicado chamar a atenção deles para isso quando carregam o carimbo de “reprovado” na testa, depois dos vestibulares.
Essa época do vestibular aumenta as expectativas, as aflições e as indecisões, principalmente na hora de optar pelo curso.
A caminho da prova, no dia do vestibular, sentem frio na barriga, as mãos ficam geladas ou suadas, as pernas falham ou tremem, sofrem pressão psicológica por parte da própria família, dos amigos, professores, da mídia...
Tudo isso aumenta muito sua insegurança antes da prova e talvez seja por isso que a grande maioria dos candidatos não realiza uma boa prova.
Na hora que estão dentro de sala respondem quase todas as questões.
Tem alunos que fecham as provas, que sentem “um branco”, que faz com que esqueçam tudo e os deixam ainda mais nervosos.

Tenho um filho de 17 anos, o Gabriel, que acaba de entrar na Faculdade de Medicina Veterinária.
Sempre sonhei em ter um filho médico, que me ajudasse e amparasse na velhice. Vou ter um filho formado em Veterinária, especializado em animais de grandes portes.
Qualquer semelhança é mera coincidência! Rs...

Ele fez vestibulares apenas para Universidades Estaduais e Federais e não conseguiu nenhuma das poucas vagas oferecidas. Depois de um ano de estudos, foi difícil ver as listas de chamadas e não achar o seu nome.



Ficou muito deprimido por conta disso e, quando viu seus amigos entrando nas diversas faculdades espalhadas por aí, federais e particulares, entrou em desespero psicológico. A vontade que a gente teve, eu e meu marido, foi de lhe arrancar do peito esse desassossego. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que ao fazermos isso ele poderia ter dificuldades em lidar com suas frustrações, no futuro. Vivemos num mundo de alta competitividade e foi muito bom para ele aprender que nem sempre vai ganhar na vida. Então por mais que isso poderia nos doer (e como doeu!), tivemos de permitir que ele vivesse intensamente esse momento, do seu jeito, e também respeitarmos o tempo dele pra digerir isso tudo.
Fazer mais um ano de cursinho para tentar a USP novamente enquanto seus amigos já faziam um primeiro ano de faculdade se tornou algo de difícil compreensão para ele...
Decidiu, então, por si mesmo, procurar uma faculdade particular e fazer a prova.
Entrou.
E, de repente, de um estado deprimido passou a um estado eufórico, de alegria, e ficou totalmente estimulado com o ano escolar que estaria por vir, estudando o que escolheu estudar desde pequeno.
Fico muito feliz em ver um filho meu satisfeito em estudar.
Preferíamos, eu e meu marido, que nosso filho trilhasse por uma Usp. Não só pelo fator financeiro mas pela carga positivamente estigmatizada que isso representa na vida profissional de uma pessoa.
Nós, pais, sempre queremos o melhor para nossos filhos. O melhor que não tivemos no passado e o melhor que há no presente, para que o futuro deles seja melhor. Mas vê-lo tão enormemente empolgado em entrar e fazer o curso...vê-lo estimulado a estudar aquilo que escolheu, enquanto tantos jovens da sua idade estão preocupados com baladas, botecos e boas vida, vê-lo feliz.... tudo isso não tem preço. E é muito bom investir num filho e em suas potencialidades. È bom poder pagar seus estudos nesta nova fase de sua vida, estudando em uma faculdade particular. Seja lá quanto for, o valor financeiro vai ser infinitamente menor do que a felicidade dele e a nossa!
Mas antes disso tudo se resolver, o que vi quando saiu o resultado da FUVEST foi um menino preocupado e puxado pra baixo pelo sistema falido da Educação deste país.
Uma quantidade absurdamente enorme de candidatos para pouquíssimas vagas.
Alguns poucos poderão curtir sua conquista e seguir seu caminho. Mas e os outros? Será que no meio desse resto todo que não conseguiu uma das vagas não teria um número bom de jovens, capacitados para entrar e fazer o curso? O sistema diz que não. E o efeito negativo que isso causa neles eu pude ver pessoalmente, mais de uma vez em minha vida, pois também passei por isso.
O que se sente ao não ver o próprio nome na lista dos classificados é algo que não daria pra descrever em palavras.
E para aqueles que tiveram seus nomes colocados na lista de espera, outra tortura crudelíssima: esperar alguém desistir da felicidade para que VOCÊ seja feliz! Uma longa e sofrida espera, até que tudo se decida. Então, se mesmo estudando bastante não dá certeza ao estudante de passar no exame, fica muito difícil compreender porque não são merecedores, mesmo depois de uma longa e penosa jornada de esforço contínuo, de estudar quando se podia sair, de estudar quando se podia dormir, de estudar quando se podia namorar....




É realmente muito cruel e doloroso, como o Ritual de Passagem de algumas tribos de índios e africanos.
Ser um “reprovado” é como ganhar um atestado de burrice imposto pelo Ministério da Educação. É lógico que eu não incluo nisso aqueles que não estudaram e não se esforçaram pra passar no vestibular. Atenho-me apenas àquelas pessoas que fizeram por merecer, mas não puderam desfrutar desta alegria por “falta de vagas”.
O sistema instiga a pessoa que não consegue uma vaga pública a fazer uma faculdade particular. E a maioria faz isso, devido ao ínfimo número de vagas estaduais e federais oferecidas nas universidades do país. Muitos estudantes vão para as universidades particulares sem nem mesmo poder. Mas nesta hora seus pais fazem “das tripas, coração” para que ele se forme. Mas há pais que realmente não conseguem. E o candidato, mesmo aprovado, não pode dar continuidade ao curso por não pode arcar com o pagamento.E como as mensalidades são caríssimas, a primeira providência dos pais é recorrerem ao Crédito Educativo. Nós recorremos. Mas o crédito para este ano, por incrível que pareça, encerrou-se em setembro do ano passado!!!Minha pergunta: se os resultados de todas as universidades saem até o final de fevereiro, porque o crédito para os calouros é fechado 5 meses antes? Todos que nunca precisaram, ao recorrerem, não podem contar com ele.
Tudo nesse sistema é absolutamente retrógrado e fundamentado nos mais selvagens tipos de capitalismo.
Para aqueles que têm a sorte de dar continuidade aos cursos particulares resta pagarem a mensalidade. Mensalidades caras, mais matrícula: o décimo terceiro da agonia de todo pai de estudante. E são duas matrículas por ano: os cursos são semestrais.
Os anos passam e o aluno se forma, depois de muitos gastos extras.
Ele vai para o mercado de trabalho e... pumba!!! Depara-se com a falta de vagas.
Muitas vezes tem de desistir do sonho de seguir atuando na carreira escolhida, abrindo mão dela e de todos os seus anos e investimentos anteriores para ocupar funções disponíveis no mercado de trabalho.
E muitas vezes, para não dizer a maioria, ganhando muito menos por mês do que aquilo que pagavam de mensalidade na faculdade.
Poucos realmente podem se dar o luxo de atuarem naquilo que se formaram e se especializaram.
Complicado isso.
Já vi muita psicóloga trabalhando em consultório dentário; muito engenheiro que virou suco; muito administrador que virou zelador e muitos outros absurdos que serviriam de exemplo.
Por que o Estado investe tão pouco em Educação?
Antigamente, com a Ditadura, era fácil de compreender, pois era muito mais fácil administrar e comandar um povo “manada” do que um povo educado, que lutasse por coisas melhores e exigisse seus direitos, vigiando que os políticos fizessem sua obrigação.
Mas hoje em dia, sem ditadura isso é inadmissível! Se investir na Educação é sempre a melhor opção, por que será que eles não se comprometem com isso, já que isso é, inclusive, o que se espera deles?
Será que as inúmeras faculdades particulares que surgem a cada ano reforçam essa atitude política, de ignorar o que é realmente importante?
Por que estudar tornou-se um “negócio”, ao invés de ser um “direito”?
Realmente, é motivo suficiente para deprimir um vestibulando e seus pais.
E o pior de tudo é que, com mais ou menos 17 anos de vida, o que esses garotos e garotas pensam é que eles é que não são capazes!
Mas alguns conseguem passar por todo esse processo sem traumas. E para aqueles que entram nas faculdades, sejam elas particulares ou não, existe a alegria de ser um Bicho. Um bicho com "x". Um Bixo!
Vão para as ruas ter seus rostos pintados e comemorar com aqueles que também já passaram por isso. Gostam muito desse dia, quando o trote é saudável. Torna-se um dia inesquecível em suas vidas.
E durante os meses seguintes, muitos desistem: por não ser o curso aquilo que gostariam que fosse; por terem escolhido errado; por estarem infelizes; por não acharem boa a faculdade e, o pior de todos, por não conseguirem continuar pagando as mensalidades. As classes começam sempre cheias. Na formatura, apenas a nata... aqueles poucos que tocaram o curso até o final.
Essa coisa de querer que um filho faça uma USP é muito complicada. Vi amigos do meu filho, na hora de fazerem a inscrição para os vestibulares, priorizarem a escolha da instituição muito mais que o da profissão. Se queriam Engenharia como primeira opção e forem aprovados apenas para jornalismo, sua segunda opção, preferem fazer jornalismo na USP do que engenharia numa faculdade particular. Isso acaba afetando profundamente a sua escolha.
Só nos resta estimular nossos filhos a sempre continuar, independentemente dos poucos recursos que lhes são oferecidos e das frustrações que vão lhes aparecendo neste caminho. Mostrar a eles que isso vêm acontecendo há muitas gerações...
E nos resta, também, forças para lutar e lutar e continuar lutando, através de nossas atitudes e de nossos filhos, pra que esse tipo de procedimento político evolua para melhor.
Enquanto isso, vamos "tocando". Trabalhar e pagar faculdade particular para um filho é uma honra na vida dos pais, apesar de todas as dificuldades e vicissitudes que isso compreende.
Já que meu filho entrou numa faculdade particular, terá todo o meu apoio incondicional, e do do meu marido, para continuar essa jornada que está apenas começando.Eu e meu marido somos parte privilegiada da sociedade. Poucos podem investir nesse mesmo luxo.Infelizmente.
Depois de cinco anos de faculdade há mais dois anos de “residência”, e mais outros tantos de especialização.
Quiçá todos os médicos veterinários deste país fossem obrigados, durante estes dois anos, a tratar dos “burros”, das “antas”, das “cobras”, dos “galinhas”, das “vacas” e dos “cavalos” do Planalto Brasileiro. Seria um excelente estágio!

Abaixo, a Música "O Peqeuno Burguês", cantada por Martinho da Vila:

Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular
Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
Jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
Sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, não cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel
E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado
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